{"id":44092,"date":"2026-01-15T14:20:28","date_gmt":"2026-01-15T17:20:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/?p=44092"},"modified":"2026-02-02T12:48:58","modified_gmt":"2026-02-02T15:48:58","slug":"o-ira-na-encruzilhada-protestos-estado-e-reconfiguracoes-regionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/2026\/01\/15\/o-ira-na-encruzilhada-protestos-estado-e-reconfiguracoes-regionais\/","title":{"rendered":"O Ir\u00e3 na Encruzilhada: Protestos, Estado e Reconfigura\u00e7\u00f5es Regionais"},"content":{"rendered":"<p>O que se desenrola no Ir\u00e3 desde o final de 2025 n\u00e3o pode ser compreendido apenas como mais um ciclo de protestos provocado pela alta do custo de vida. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 algo mais profundo e inquietante: a exaust\u00e3o de um modelo pol\u00edtico que j\u00e1 n\u00e3o consegue responder \u00e0s necessidades materiais, simb\u00f3licas e morais de sua pr\u00f3pria sociedade. A crise iraniana exp\u00f5e, de forma crua, o distanciamento entre Estado e popula\u00e7\u00e3o e coloca em xeque um projeto de poder constru\u00eddo h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o persistente, a desvaloriza\u00e7\u00e3o acelerada do rial (moeda nacional) e o encarecimento dos alimentos funcionam como gatilhos imediatos, mas n\u00e3o explicam sozinhos a magnitude das mobiliza\u00e7\u00f5es. Esses elementos revelam o esgotamento de uma economia rentista, dependente da exporta\u00e7\u00e3o de hidrocarbonetos e organizada para sustentar estruturas de poder militarizadas e clericais. As san\u00e7\u00f5es internacionais agravaram o quadro, mas n\u00e3o o criaram. A insist\u00eancia em atribuir toda a crise a fatores externos serve, muitas vezes, para ocultar decis\u00f5es internas que privilegiaram a proje\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e a sobreviv\u00eancia do regime em detrimento do bem-estar social.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter dos protestos torna esse momento particularmente revelador. O descontentamento n\u00e3o surge apenas das periferias ou de setores historicamente marginalizados, mas tamb\u00e9m de grupos que durante d\u00e9cadas foram considerados pilares da estabilidade pol\u00edtica, como comerciantes tradicionais e segmentos da classe m\u00e9dia urbana. Quando aqueles que sustentaram o pacto social passam a question\u00e1-lo abertamente, o problema deixa de ser conjuntural e se transforma em estrutural.<\/p>\n<p>A resposta estatal aprofunda essa leitura. O uso recorrente da repress\u00e3o, das deten\u00e7\u00f5es em massa e do bloqueio informacional n\u00e3o restabelece a ordem; antes, evidencia a fragilidade de um sistema pol\u00edtico que j\u00e1 n\u00e3o encontra legitimidade suficiente para governar sem coer\u00e7\u00e3o. O controle substitui o consenso, e a for\u00e7a ocupa o lugar do di\u00e1logo. Essa din\u00e2mica n\u00e3o resolve a crise, apenas a adia e a radicaliza.<\/p>\n<p>Uma leitura decolonial permite escapar das armadilhas interpretativas que reduzem o Ir\u00e3 a uma caricatura entre atraso oriental e modernidade ocidental. A contesta\u00e7\u00e3o em curso n\u00e3o se dirige apenas contra press\u00f5es externas, mas tamb\u00e9m contra hierarquias internas profundamente arraigadas. Mulheres, jovens e minorias \u00e9tnicas emergem como protagonistas de uma disputa moral e pol\u00edtica que desafia estruturas patriarcais, desigualdades sociais e mecanismos de controle sobre os corpos e as subjetividades.<\/p>\n<p>O lema <em>\u201cZan, Zendegi, Azadi\u201d<\/em> (Mulher, Vida, Liberdade) sintetiza esse embate de forma poderosa. N\u00e3o se trata de um slogan importado, mas da express\u00e3o localizada de uma \u00e9tica pol\u00edtica que reivindica dignidade em um contexto marcado pela vigil\u00e2ncia e pela normatiza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana. Os protestos deixam de ser apenas uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 pobreza ou \u00e0 infla\u00e7\u00e3o e assumem contornos civilizat\u00f3rios ao questionar o pr\u00f3prio sentido da autoridade e da obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>No plano internacional, a crise iraniana rapidamente se converte em objeto de disputa narrativa. Discursos sobre direitos humanos e democracia reaparecem acompanhados de amea\u00e7as de san\u00e7\u00f5es e press\u00f5es diplom\u00e1ticas. Esse movimento exige cautela. A hist\u00f3ria recente demonstra que interven\u00e7\u00f5es externas raramente produzem emancipa\u00e7\u00e3o social e frequentemente refor\u00e7am din\u00e2micas de domina\u00e7\u00e3o. Transforma\u00e7\u00f5es duradouras dependem de processos internos, por mais lentos, contradit\u00f3rios e incertos que sejam.<\/p>\n<p>O Ir\u00e3 encontra-se, portanto, em uma encruzilhada hist\u00f3rica. O aprofundamento do autoritarismo \u00e9 uma possibilidade real, assim como a emerg\u00eancia de formas ainda indefinidas de recomposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O desfecho permanece em aberto, mas uma certeza se imp\u00f5e: o pacto que sustentou a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica por d\u00e9cadas j\u00e1 n\u00e3o responde \u00e0s expectativas de uma sociedade profundamente transformada.<\/p>\n<p>Para quem observa a regi\u00e3o a partir da Am\u00e9rica Latina, esse cen\u00e1rio imp\u00f5e um desafio anal\u00edtico e \u00e9tico. Compreender o que ocorre no Ir\u00e3 exige abandonar explica\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis e reconhecer que a crise atual reflete tens\u00f5es mais amplas do sistema internacional contempor\u00e2neo. Trata-se de um momento que interpela n\u00e3o apenas o Estado iraniano, mas as pr\u00f3prias formas como soberania, legitimidade e dignidade humana s\u00e3o pensadas no mundo de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Bruno Younes<\/strong><\/em><br \/>\nIntegrante<br \/>\nDepartamento de Medio Oriente<br \/>\nIRI-UNLP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Bruno Younes<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":21671,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[1858,1970,1138],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"thumbnail":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200-300x80.png",300,80,true],"medium_large":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"large":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"1536x1536":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"2048x2048":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"ocean-thumb-m":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",600,160,false],"ocean-thumb-ml":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"ocean-thumb-l":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"sow-carousel-default":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200-272x182.png",272,182,true],"sow-blog-portfolio":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",375,100,false],"sow-blog-grid":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",720,192,false],"sow-blog-alternate":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"Noel\u00ed Scarpelli","author_link":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/author\/noeli\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"por Bruno Younes","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44092"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44092"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44092\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44094,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44092\/revisions\/44094"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44092"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44092"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44092"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}