{"id":44115,"date":"2026-01-22T10:56:19","date_gmt":"2026-01-22T13:56:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/?p=44115"},"modified":"2026-02-02T12:49:51","modified_gmt":"2026-02-02T15:49:51","slug":"quando-um-estado-finalmente-reconhece-o-que-nunca-conseguiu-apagar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/2026\/01\/22\/quando-um-estado-finalmente-reconhece-o-que-nunca-conseguiu-apagar\/","title":{"rendered":"Quando um Estado finalmente reconhece o que nunca conseguiu apagar"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 decis\u00f5es pol\u00edticas que n\u00e3o inauguram uma realidade. Apenas admitem aquilo que sempre existiu. O recente decreto assinado pelo presidente s\u00edrio <strong>Ahmed al-Sharaa<\/strong>, reconhecendo o curdo como l\u00edngua nacional e restaurando a cidadania a milhares de curdos s\u00edrios, \u00e9 exatamente isso. Um reconhecimento tardio de uma exist\u00eancia que resistiu apesar do Estado, e n\u00e3o gra\u00e7as a ele.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, falar curdo na S\u00edria foi um ato silencioso de resist\u00eancia. N\u00e3o constava em documentos, n\u00e3o era permitido nas escolas, n\u00e3o era reconhecido pelo poder central. A l\u00edngua sobreviveu nas casas, nas can\u00e7\u00f5es, nos nomes sussurrados, nos rituais familiares. Sobreviveu porque identidade n\u00e3o se decreta. Se vive.<\/p>\n<p>A retirada da cidadania de dezenas de milhares de curdos, iniciada nos anos 1960, transformou pessoas em sombras jur\u00eddicas. Gente que nasceu, cresceu e trabalhou na S\u00edria passou a n\u00e3o existir oficialmente. Sem documentos, sem direitos, sem voz. Um povo inteiro foi empurrado para a condi\u00e7\u00e3o de estrangeiro em sua pr\u00f3pria terra. Isso n\u00e3o foi um erro administrativo. Foi um projeto pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Por isso, o decreto agora assinado carrega um peso hist\u00f3rico enorme. Reconhecer a l\u00edngua curda e devolver a cidadania \u00e9, ainda que tardiamente, admitir que o projeto de apagamento falhou. O Estado tentou silenciar, assimilar, diluir e n\u00e3o conseguiu. A identidade curda atravessou o s\u00e9culo XX e chegou ao XXI mais consciente de si do que nunca.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso dizer com clareza. Esse gesto n\u00e3o nasce do nada. Ele ocorre depois de anos em que os curdos, especialmente no norte da S\u00edria, organizaram suas pr\u00f3prias formas de vida pol\u00edtica, social e cultural. Enquanto o Estado ru\u00eda em meio \u00e0 guerra civil, comunidades inteiras passaram a gerir educa\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a, seguran\u00e7a e economia local. N\u00e3o esperaram autoriza\u00e7\u00e3o. Agiram porque precisavam sobreviver.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o reconhecimento estatal vem depois do fato consumado. A l\u00edngua curda j\u00e1 era l\u00edngua p\u00fablica nas escolas comunit\u00e1rias. A cidadania j\u00e1 era exercida na pr\u00e1tica, mesmo sem papel timbrado. O decreto tenta alcan\u00e7ar uma realidade que se moveu \u00e0 frente do Estado.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que o gesto seja irrelevante. Ao contr\u00e1rio. Em uma regi\u00e3o marcada por autoritarismos persistentes, admitir o car\u00e1ter plurinacional e pluricultural da S\u00edria \u00e9 uma ruptura simb\u00f3lica importante. Estados do Oriente M\u00e9dio foram constru\u00eddos sobre a ideia da homogeneidade for\u00e7ada. Uma l\u00edngua, uma identidade, uma narrativa oficial. Toda diferen\u00e7a era vista como amea\u00e7a. Reconhecer o curdo \u00e9 admitir que essa l\u00f3gica fracassou.<\/p>\n<p>A pergunta que permanece, no entanto, \u00e9 inc\u00f4moda e necess\u00e1ria. At\u00e9 onde vai esse reconhecimento. Ser\u00e1 ele acompanhado de garantias reais, participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e respeito \u00e0s formas de organiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 existentes. Ou ser\u00e1 apenas uma tentativa de reinscrever o controle estatal sobre territ\u00f3rios e popula\u00e7\u00f5es que aprenderam a viver sem ele.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do povo curdo ensina prud\u00eancia. Direitos concedidos de cima para baixo, sem enraizamento comunit\u00e1rio, costumam ser fr\u00e1geis. Podem ser retirados com a mesma caneta que os concedeu. Por isso, mais do que celebrar o decreto, \u00e9 fundamental observ\u00e1-lo com aten\u00e7\u00e3o cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Ainda assim, h\u00e1 algo que nem o mais autorit\u00e1rio dos Estados consegue controlar completamente. O sentido simb\u00f3lico da linguagem. Reconhecer uma l\u00edngua \u00e9 reconhecer uma mem\u00f3ria coletiva, uma vis\u00e3o de mundo, uma forma pr\u00f3pria de narrar o passado e imaginar o futuro. Nesse aspecto, o decreto s\u00edrio rompe um sil\u00eancio imposto \u00e0 for\u00e7a por gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Talvez este seja o ponto mais profundo desse momento hist\u00f3rico. O Estado, finalmente, admite que n\u00e3o conseguiu vencer o tempo. O povo que tentou apagar segue falando, ensinando seus filhos, organizando sua vida e reivindicando dignidade.<\/p>\n<p>A cidadania restaurada e a l\u00edngua reconhecida n\u00e3o encerram a quest\u00e3o curda na S\u00edria. Mas deixam algo claro. O povo curdo n\u00e3o precisa mais provar que existe. Isso, a hist\u00f3ria j\u00e1 provou por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Bruno Roque Younes<\/strong><\/em><br \/>\nProfesor brasile\u00f1o<br \/>\nIntegrante<br \/>\nDepartamento de Medio Oriente<br \/>\nIRI &#8211; UNLP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Bruno Roque Younes<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":21671,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[1858,1970,1138],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"thumbnail":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200-300x80.png",300,80,true],"medium_large":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"large":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"1536x1536":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"2048x2048":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"ocean-thumb-m":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",600,160,false],"ocean-thumb-ml":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"ocean-thumb-l":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"sow-carousel-default":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200-272x182.png",272,182,true],"sow-blog-portfolio":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",375,100,false],"sow-blog-grid":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",720,192,false],"sow-blog-alternate":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"Noel\u00ed Scarpelli","author_link":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/author\/noeli\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"por Bruno Roque Younes","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44115"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44115"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44117,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44115\/revisions\/44117"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}