{"id":45157,"date":"2026-04-16T17:44:47","date_gmt":"2026-04-16T20:44:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/?p=45157"},"modified":"2026-04-16T17:45:13","modified_gmt":"2026-04-16T20:45:13","slug":"libano-30-dias-a-normalizacao-do-inaceitavel-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/2026\/04\/16\/libano-30-dias-a-normalizacao-do-inaceitavel-2\/","title":{"rendered":"L\u00edbano, 30 dias: a normaliza\u00e7\u00e3o do inaceit\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Pela primeira vez na hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, L\u00edbano e Israel estabelecem negocia\u00e7\u00f5es diretas. O fato, por si s\u00f3, carrega um peso que ultrapassa a diplomacia. Ele tensiona d\u00e9cadas de sil\u00eancio hostil, confrontos indiretos e uma conviv\u00eancia marcada mais pela nega\u00e7\u00e3o do outro do que pelo reconhecimento m\u00fatuo.<\/p>\n<p>Desde a Guerra \u00c1rabe-Israelense de 1948, o Oriente M\u00e9dio consolidou-se como um espa\u00e7o onde a pol\u00edtica frequentemente se expressa pela guerra, ou por suas extens\u00f5es menos vis\u00edveis. O L\u00edbano, situado em uma posi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica sens\u00edvel, tornou-se, ao longo do tempo, n\u00e3o apenas um ator, mas tamb\u00e9m um territ\u00f3rio de proje\u00e7\u00e3o de for\u00e7as externas. Israel, desde sua funda\u00e7\u00e3o, constr\u00f3i sua pol\u00edtica de seguran\u00e7a sob a l\u00f3gica da antecipa\u00e7\u00e3o permanente do conflito.<\/p>\n<p>Nesse contexto, epis\u00f3dios como a Guerra do L\u00edbano de 2006 n\u00e3o foram exce\u00e7\u00f5es, mas manifesta\u00e7\u00f5es de uma estrutura mais profunda. Trata-se de um conflito que persiste porque est\u00e1 enraizado em disputas de mem\u00f3ria, identidade e legitimidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente por isso que o atual movimento de negocia\u00e7\u00e3o direta n\u00e3o deve ser romantizado. Ele n\u00e3o representa, necessariamente, uma abertura \u00e9tica ao outro, mas sim uma inflex\u00e3o estrat\u00e9gica diante de um cen\u00e1rio que se tornou insustent\u00e1vel. O L\u00edbano enfrenta um colapso multifacetado, econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social, que fragiliza sua capacidade de a\u00e7\u00e3o soberana. Israel, por sua vez, busca estabilizar suas fronteiras e conter amea\u00e7as persistentes, especialmente aquelas associadas ao Hezbollah.<\/p>\n<p>Negocia-se, portanto, n\u00e3o porque se construiu confian\u00e7a, mas porque se esgotaram alternativas vi\u00e1veis. H\u00e1, aqui, uma dimens\u00e3o cl\u00e1ssica da hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es internacionais que n\u00e3o pode ser ignorada. Muitos dos acordos mais relevantes surgiram n\u00e3o da converg\u00eancia de valores, mas do reconhecimento do limite da viol\u00eancia. Em outras palavras, o di\u00e1logo n\u00e3o nasce da harmonia, mas do impasse. E \u00e9 nesse ponto que a an\u00e1lise exige maturidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Negocia\u00e7\u00f5es diretas podem redesenhar cen\u00e1rios, mas dificilmente apagam estruturas. Quando n\u00e3o se enfrentam as ra\u00edzes do conflito, territ\u00f3rio, soberania, narrativas concorrentes e traumas acumulados, o que se produz \u00e9 uma estabilidade provis\u00f3ria, frequentemente fr\u00e1gil e revers\u00edvel.<\/p>\n<p>No entanto, seria igualmente equivocado desprezar o significado desse momento. H\u00e1 algo de profundamente transformador no simples ato de romper a l\u00f3gica do n\u00e3o reconhecimento. Em regi\u00f5es onde o outro \u00e9 historicamente constru\u00eddo como inimigo absoluto, o gesto de negociar, ainda que por necessidade, introduz uma fissura na rigidez do conflito. E, na hist\u00f3ria, s\u00e3o muitas vezes essas fissuras que abrem caminho para mudan\u00e7as mais amplas.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso cautela. O Oriente M\u00e9dio j\u00e1 testemunhou in\u00fameros momentos em que a diplomacia operou como uma pausa t\u00e1tica, e n\u00e3o como um projeto de paz. A negocia\u00e7\u00e3o pode ser, simultaneamente, um instrumento de conten\u00e7\u00e3o e uma estrat\u00e9gia de reorganiza\u00e7\u00e3o para conflitos futuros.<\/p>\n<p>Diante disso, a reflex\u00e3o que se imp\u00f5e \u00e9 menos otimista e mais honesta. Estamos diante de um processo de paz ou apenas de uma reconfigura\u00e7\u00e3o do conflito? Talvez a resposta resida em uma compreens\u00e3o mais s\u00f3bria da pr\u00f3pria natureza hist\u00f3rica desses eventos. Nem todo di\u00e1logo \u00e9 sinal de reconcilia\u00e7\u00e3o. Alguns s\u00e3o, na verdade, express\u00f5es refinadas da continuidade do conflito por outros meios.<\/p>\n<p>E ainda assim, e aqui reside o paradoxo mais humano da pol\u00edtica, mesmo di\u00e1logos imperfeitos podem evitar trag\u00e9dias maiores. Entre a guerra permanente e a paz improv\u00e1vel, h\u00e1 um espa\u00e7o intermedi\u00e1rio, inst\u00e1vel e tenso, onde a hist\u00f3ria costuma ser escrita. \u00c9 exatamente nesse espa\u00e7o que L\u00edbano e Israel se encontram agora. E talvez a pergunta mais importante n\u00e3o seja se haver\u00e1 paz, mas que tipo de futuro pode emergir quando inimigos hist\u00f3ricos, ainda que por necessidade, decidem finalmente se escutar.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Bruno Younes<\/strong><\/em><br \/>\nBrasil<br \/>\nIntegrante<br \/>\nDepartamento de Medio Oriente<br \/>\nIRI-UNLP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Bruno Younes<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":21671,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[1858,1138],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"thumbnail":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200-300x80.png",300,80,true],"medium_large":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"large":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"1536x1536":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"2048x2048":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"ocean-thumb-m":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",600,160,false],"ocean-thumb-ml":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"ocean-thumb-l":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false],"sow-carousel-default":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200-272x182.png",272,182,true],"sow-blog-portfolio":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",375,100,false],"sow-blog-grid":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",720,192,false],"sow-blog-alternate":["https:\/\/www.iri.edu.ar\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/opinionesIRI-FEAT-750x200.png",750,200,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"Noel\u00ed Scarpelli","author_link":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/author\/noeli\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"por Bruno Younes","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45157"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45157"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45157\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45159,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45157\/revisions\/45159"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45157"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45157"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45157"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}