{"id":46800,"date":"2026-08-27T12:21:52","date_gmt":"2026-08-27T15:21:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/?p=46800"},"modified":"2026-08-27T12:23:36","modified_gmt":"2026-08-27T15:23:36","slug":"15-anos-depois-o-que-sobrou-da-siria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/2026\/08\/27\/15-anos-depois-o-que-sobrou-da-siria\/","title":{"rendered":"15 anos depois, o que sobrou da S\u00edria?"},"content":{"rendered":"<p>Quinze anos ap\u00f3s o in\u00edcio da guerra na S\u00edria, talvez a pergunta mais importante j\u00e1 n\u00e3o seja quem venceu. A pergunta verdadeira \u00e9: <strong>o que restou para o povo s\u00edrio?<\/strong><\/p>\n<p>Vistas de longe, as guerras costumam ser explicadas por presidentes, ex\u00e9rcitos, alian\u00e7as internacionais, grupos armados e disputas geopol\u00edticas. Mas a guerra s\u00edria n\u00e3o pode ser compreendida apenas pelos nomes que ocuparam os pal\u00e1cios, os quart\u00e9is ou as mesas diplom\u00e1ticas. \u00c9 preciso olhar para quem esteve embaixo dos escombros. Para quem perdeu a casa. Para quem enterrou os filhos. Para quem atravessou fronteiras sem saber se um dia voltaria.<\/p>\n<p>Antes da guerra, a S\u00edria era uma das grandes sociedades hist\u00f3ricas do Oriente M\u00e9dio, um territ\u00f3rio onde civiliza\u00e7\u00f5es se encontraram ao longo de mil\u00eanios. Damasco, uma das cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo, Aleppo, Palmira, Homs e tantas outras carregavam uma mem\u00f3ria que ultrapassava qualquer governo ou regime. A guerra, por\u00e9m, n\u00e3o destruiu apenas pr\u00e9dios: atingiu o que sustenta uma sociedade \u2014 a conviv\u00eancia, a mem\u00f3ria, a fam\u00edlia, o sentimento de pertencimento.<\/p>\n<p>Quando o conflito come\u00e7ou, em 2011, no contexto da Primavera \u00c1rabe, muitos s\u00edrios acreditaram estar vivendo um momento de transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Havia insatisfa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, repress\u00e3o, desigualdade e d\u00e9cadas de autoritarismo. Mas o que nasceu como contesta\u00e7\u00e3o popular acabou engolido por uma guerra que extrapolou as fronteiras do pr\u00f3prio pa\u00eds. Pot\u00eancias estrangeiras entraram em cena, interesses regionais se chocaram, e a S\u00edria se transformou em palco de disputas que, muitas vezes, pouco tinham a ver com as necessidades de sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um dos aspectos mais cru\u00e9is dessa guerra: os s\u00edrios deixaram de ser sujeitos de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria para viver dentro de um conflito disputado por muitos outros.<\/p>\n<p>A R\u00fassia tinha seus interesses. Os Estados Unidos, os seus. O Ir\u00e3, a Turquia, Israel e diferentes grupos pol\u00edticos e militares, tamb\u00e9m os seus. Enquanto isso, o povo s\u00edrio fazia o que os povos fazem quando os poderosos transformam sua terra em campo de batalha: tentava sobreviver.<\/p>\n<p>Uma gera\u00e7\u00e3o inteira cresceu sem saber o que \u00e9 viver em um pa\u00eds em paz. H\u00e1 jovens s\u00edrios nascidos depois de 2011 que conhecem sua p\u00e1tria apenas por ru\u00ednas, campos de deslocados, hist\u00f3rias contadas pelos pais ou imagens de cidades que talvez nunca tenham visto como eram antes. Que futuro se constr\u00f3i quando a inf\u00e2ncia \u00e9 marcada pelo medo? O que acontece com uma sociedade quando milh\u00f5es de pessoas aprendem, desde cedo, que a pr\u00f3pria casa pode desaparecer de um dia para o outro?<\/p>\n<p>O tempo passou \u2014 e talvez essa seja outra trag\u00e9dia: o mundo se acostumou com a S\u00edria.<\/p>\n<p>As grandes imagens de destrui\u00e7\u00e3o deixaram as capas dos jornais. Outras guerras ocuparam as manchetes. Outras trag\u00e9dias passaram a exigir nossa aten\u00e7\u00e3o. Mas a popula\u00e7\u00e3o s\u00edria n\u00e3o teve o privil\u00e9gio de mudar de assunto. Para quem viveu a guerra, ela n\u00e3o terminou quando a televis\u00e3o deixou de transmitir suas imagens: ela continua na pobreza, na fome, na aus\u00eancia de perspectivas, nas fam\u00edlias separadas e nas cidades que ainda carregam as cicatrizes de anos de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Quinze anos depois, \u00e9 imposs\u00edvel falar da guerra na S\u00edria sem reconhecer o fracasso pol\u00edtico e moral que ela representa \u2014 n\u00e3o apenas pelo que aconteceu dentro do pa\u00eds, mas pelo que o mundo permitiu que acontecesse. A comunidade internacional assistiu \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de uma sociedade inteira enquanto discutia resolu\u00e7\u00f5es, linhas vermelhas, zonas de influ\u00eancia e interesses estrat\u00e9gicos. A diplomacia falou durante anos; o povo, enquanto isso, continuou morrendo, fugindo e perdendo tudo.<\/p>\n<p>Talvez essa seja a maior consequ\u00eancia da guerra: a destrui\u00e7\u00e3o da possibilidade de uma vida normal.<\/p>\n<p>A guerra roubou dos s\u00edrios algo que raramente aparece nas estat\u00edsticas. Roubou anivers\u00e1rios celebrados em fam\u00edlia. Roubou o caminho cotidiano at\u00e9 a escola. Roubou a possibilidade de envelhecer na mesma casa. Roubou a certeza de que os filhos viveriam no mesmo pa\u00eds que os pais. Roubou, at\u00e9, o direito de imaginar o futuro.<\/p>\n<p>Por isso, quinze anos depois, a S\u00edria n\u00e3o deve ser lembrada apenas como uma guerra, mas como uma trag\u00e9dia humana e pol\u00edtica \u2014 uma trag\u00e9dia que come\u00e7ou nas contradi\u00e7\u00f5es de um regime autorit\u00e1rio, mas que se aprofundou pela incapacidade do mundo de impedir que uma popula\u00e7\u00e3o inteira fosse sacrificada no altar dos interesses geopol\u00edticos.<\/p>\n<p>A S\u00edria continua existindo. Seu povo continua existindo. E talvez essa seja, ao mesmo tempo, sua maior dor e sua maior resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Porque, depois de quinze anos entre ru\u00ednas, ex\u00edlio e perdas irrepar\u00e1veis, milh\u00f5es de s\u00edrios ainda carregam consigo uma ideia simples e profundamente humana: a esperan\u00e7a de voltar a ter a vida que a guerra lhes roubou.<\/p>\n<p>E nenhum povo deveria precisar esperar quinze anos para ter o direito de viver novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Bruno Younes<\/strong><\/em><br \/>\nBrasil<br \/>\nIntegrante<br \/>\nDepartamento de Medio Oriente<br \/>\nIRI-UNLP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Bruno 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