{"id":48188,"date":"2026-10-07T10:58:59","date_gmt":"2026-10-07T13:58:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/?p=48188"},"modified":"2026-10-07T12:00:19","modified_gmt":"2026-10-07T15:00:19","slug":"tres-anos-depois-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iri.edu.ar\/index.php\/2026\/10\/07\/tres-anos-depois-gaza\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas anos depois: Gaza"},"content":{"rendered":"<p>Hoje completa-se o terceiro anivers\u00e1rio do ataque conduzido pelo Hamas e por outros grupos armados palestinos contra Israel, acontecimento que desencadeou a mais devastadora fase do conflito israelo-palestino em d\u00e9cadas. Naquele dia, aproximadamente 1.200 pessoas foram mortas em Israel e 251 foram levadas como ref\u00e9ns para Gaza. A resposta militar israelense produziu, por sua vez, uma cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria de dimens\u00f5es extraordin\u00e1rias. Em setembro de 2026, a Associated Press, com base nos dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade de Gaza, registrava mais de 74 mil palestinos mortos e mais de 175 mil feridos desde o in\u00edcio da guerra.<\/p>\n<p>O significado dos tr\u00eas anos, portanto, n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0 contagem de mortos ou \u00e0 sucess\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es militares e cessar-fogo. O aspecto mais profundo do conflito est\u00e1 em seu car\u00e1ter sist\u00eamico. Gaza tornou-se simultaneamente uma trag\u00e9dia humanit\u00e1ria, um laborat\u00f3rio de guerra urbana, um problema jur\u00eddico internacional, um fator de reorganiza\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica do Oriente M\u00e9dio e uma das express\u00f5es mais graves da crise de autoridade das institui\u00e7\u00f5es multilaterais. Mesmo depois do cessar-fogo de outubro de 2025, a viol\u00eancia n\u00e3o desapareceu. Em setembro de 2026, a OCHA ainda registrava novas mortes, deslocamentos e ataques, enquanto a maior parte da popula\u00e7\u00e3o permanecia deslocada.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O primeiro aspecto a ser considerado \u00e9 justamente a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade civil palestina. A destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica de Gaza ultrapassou aquilo que normalmente se entende como dano colateral de uma campanha militar. Dados da ONU indicavam, em junho de 2026, que aproximadamente 82% das estruturas existentes na Faixa haviam sido danificadas, incluindo mais de 134 mil estruturas classificadas como destru\u00eddas. Mais de 328 mil unidades habitacionais haviam sido afetadas. Ao mesmo tempo, estimativas da ONU apontavam para mais de 60 milh\u00f5es de toneladas de escombros produzidos desde outubro de 2023. A destrui\u00e7\u00e3o das redes de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, abastecimento de \u00e1gua, saneamento e moradia significa que a reconstru\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 simplesmente uma quest\u00e3o de erguer pr\u00e9dios novamente. Trata-se de reconstruir condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de reprodu\u00e7\u00e3o da vida social. O problema \u00e9 agravado pelo fato de que cerca de 2,1 milh\u00f5es de pessoas permanecem deslocadas, em diferentes graus, dentro de um territ\u00f3rio extremamente reduzido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa dimens\u00e3o ajuda a compreender por que o conflito ultrapassa a categoria tradicional de guerra entre for\u00e7as armadas. A destrui\u00e7\u00e3o acumulada produz efeitos intergeracionais. Crian\u00e7as que perderam familiares, casas, escolas e refer\u00eancias comunit\u00e1rias carregam consequ\u00eancias que n\u00e3o terminam com o cessar-fogo. Mulheres passaram a assumir, em n\u00famero crescente, a responsabilidade exclusiva por seus domic\u00edlios, enquanto o sistema de sa\u00fade permanece profundamente comprometido. Em agosto de 2026, a UNRWA classificava o sistema de sa\u00fade de Gaza como estruturalmente colapsado, ap\u00f3s anos de destrui\u00e7\u00e3o, deslocamentos, escassez de medicamentos, combust\u00edvel e equipamentos. A guerra, nesse sentido, produz uma segunda temporalidade: mesmo quando os tiros diminuem, seus efeitos continuam operando sobre a sociedade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No plano geopol\u00edtico, Gaza tamb\u00e9m alterou significativamente o equil\u00edbrio regional. O conflito aproximou diferentes teatros de guerra: Israel e Hezbollah no L\u00edbano, Israel e grupos apoiados pelo Ir\u00e3 no Iraque e na S\u00edria, os ataques dos houthis no Mar Vermelho e, posteriormente, a escalada direta envolvendo Israel, Estados Unidos e Ir\u00e3. O resultado foi uma eros\u00e3o da ideia de que o conflito israelo-palestino poderia permanecer isolado das demais disputas do Oriente M\u00e9dio. Ao mesmo tempo, a centralidade dos Estados Unidos permaneceu evidente. Washington continuou sendo o principal aliado estrat\u00e9gico de Israel e participou diretamente das negocia\u00e7\u00f5es de cessar-fogo, ao lado de Egito e Catar. Contudo, essa influ\u00eancia coexistiu com sucessivos bloqueios diplom\u00e1ticos no Conselho de Seguran\u00e7a. Em junho de 2025, por exemplo, os Estados Unidos vetaram uma resolu\u00e7\u00e3o de cessar-fogo que havia recebido 14 votos favor\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">China e R\u00fassia, por sua vez, encontraram na crise uma oportunidade para contestar a centralidade diplom\u00e1tica ocidental, embora sua atua\u00e7\u00e3o tenha sido diferente da norte-americana. Pequim ampliou sua presen\u00e7a diplom\u00e1tica, apoiou a f\u00f3rmula de \u201cpalestinos governando a Palestina\u201d e reiterou a defesa da solu\u00e7\u00e3o de dois Estados. Moscou manteve posi\u00e7\u00e3o semelhante em favor de um Estado palestino ao lado de Israel, mas sua capacidade de transformar discurso diplom\u00e1tico em media\u00e7\u00e3o efetiva permaneceu limitada. O resultado \u00e9 uma ordem regional mais fragmentada, na qual Estados Unidos, China, R\u00fassia, Ir\u00e3, Turquia, pa\u00edses do Golfo e atores n\u00e3o estatais disputam influ\u00eancia sem que nenhum deles tenha conseguido construir uma arquitetura de seguran\u00e7a regional duradoura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa fragmenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m exp\u00f4s os limites do sistema internacional de responsabiliza\u00e7\u00e3o. O Tribunal Penal Internacional emitiu, em novembro de 2024, mandados de pris\u00e3o contra <\/span><b>Benjamin Netanyahu<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> e <\/span><b>Yoav Gallant<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> por alegados crimes de guerra e crimes contra a humanidade, al\u00e9m de ter emitido mandado contra <\/span><b>Mohammed Deif <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">por alegados crimes cometidos no contexto do conflito. S\u00e3o decis\u00f5es judiciais relevantes, mas mandados de pris\u00e3o n\u00e3o equivalem a condena\u00e7\u00f5es e sua execu\u00e7\u00e3o depende da coopera\u00e7\u00e3o dos Estados. Paralelamente, a Corte Internacional de Justi\u00e7a determinou medidas provis\u00f3rias no processo movido pela \u00c1frica do Sul contra Israel sob a Conven\u00e7\u00e3o do Genoc\u00eddio, estabelecendo obriga\u00e7\u00f5es destinadas \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de atos abrangidos pela Conven\u00e7\u00e3o e \u00e0 garantia de assist\u00eancia humanit\u00e1ria. O processo sobre o m\u00e9rito, contudo, permanece distinto das medidas provis\u00f3rias e ainda n\u00e3o produziu uma senten\u00e7a final sobre a alega\u00e7\u00e3o de genoc\u00eddio. O problema central n\u00e3o \u00e9, portanto, a inexist\u00eancia completa de normas, mas a dist\u00e2ncia entre a exist\u00eancia da norma e sua capacidade de produzir efeitos concretos em uma guerra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No plano interno, tanto Israel quanto os territ\u00f3rios palestinos enfrentam uma crise de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Em Israel, a guerra tornou-se insepar\u00e1vel da disputa sobre responsabilidade pelo fracasso de seguran\u00e7a de 7 de outubro, pela condu\u00e7\u00e3o militar do conflito e pelo destino dos ref\u00e9ns. A elei\u00e7\u00e3o israelense prevista para outubro de 2026 ocorre em meio a uma disputa pol\u00edtica na qual <\/span><b>Netanyahu<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> procura apresentar-se como garantidor da seguran\u00e7a nacional, enquanto opositores procuram associar sua lideran\u00e7a \u00e0s falhas anteriores e aos custos prolongados da guerra. Entre os palestinos, o problema \u00e9 ainda mais estrutural. A divis\u00e3o entre Fatah e Hamas permanece, enquanto a Autoridade Palestina enfrenta uma profunda crise de legitimidade. <\/span><b>Mahmoud Abbas<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> anunciou elei\u00e7\u00f5es legislativas para novembro de 2026, as primeiras em duas d\u00e9cadas, mas permanecem d\u00favidas sobre sua realiza\u00e7\u00e3o, diante de divis\u00f5es internas, obst\u00e1culos log\u00edsticos e da pr\u00f3pria fragmenta\u00e7\u00e3o territorial palestina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 nesse ponto que aparece a quest\u00e3o decisiva do chamado \u201cdia seguinte\u201d. Cessar-fogo n\u00e3o significa necessariamente paz, e reconstru\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa automaticamente resolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O futuro de Gaza depende de perguntas ainda abertas: quem governar\u00e1 o territ\u00f3rio, quem controlar\u00e1 suas fronteiras, quem exercer\u00e1 o monop\u00f3lio da for\u00e7a, como ocorrer\u00e1 o desarmamento dos grupos armados, qual ser\u00e1 o papel da Autoridade Palestina, quem financiar\u00e1 a reconstru\u00e7\u00e3o e quais garantias de seguran\u00e7a ser\u00e3o oferecidas a israelenses e palestinos. A experi\u00eancia recente demonstra que acordos tempor\u00e1rios fracassam quando as partes n\u00e3o conseguem conciliar objetivos estrat\u00e9gicos incompat\u00edveis. Israel insiste na necessidade de impedir que Gaza volte a constituir uma base para ataques; setores palestinos defendem o fim da ocupa\u00e7\u00e3o, a autodetermina\u00e7\u00e3o e a soberania nacional. Entre essas posi\u00e7\u00f5es permanece um enorme vazio institucional. A proposta norte-americana de uma estrutura internacional para a administra\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o de Gaza representa uma tentativa de preench\u00ea-lo, mas sua implementa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m levanta quest\u00f5es sobre soberania palestina, legitimidade pol\u00edtica e o papel das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tr\u00eas anos depois de 7 de outubro, Gaza tornou-se, portanto, mais do que um epis\u00f3dio particularmente devastador do conflito israelo-palestino. Ela passou a representar uma crise de toda uma arquitetura internacional. A incapacidade de impedir a destrui\u00e7\u00e3o em larga escala, a dificuldade de fazer cumprir decis\u00f5es judiciais e a paralisia recorrente do Conselho de Seguran\u00e7a revelam uma ordem internacional na qual o direito continua existindo, mas sua aplica\u00e7\u00e3o depende fortemente da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre os Estados. Ao mesmo tempo, a guerra demonstrou que a seguran\u00e7a de Israel, a autodetermina\u00e7\u00e3o palestina e a estabilidade regional n\u00e3o podem ser tratadas como problemas independentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O verdadeiro desafio do p\u00f3s-guerra ser\u00e1, portanto, impedir que Gaza seja apenas reconstru\u00edda fisicamente para permanecer politicamente destru\u00edda. Reconstruir casas sem reconstruir institui\u00e7\u00f5es, escolas sem reconstruir perspectivas de futuro e infraestrutura sem criar um horizonte pol\u00edtico significaria apenas preparar o terreno para uma nova rodada de viol\u00eancia. O terceiro anivers\u00e1rio de outubro de 2023 deveria ser compreendido menos como uma data para encerrar uma narrativa e mais como um momento para reconhecer que nenhuma ordem regional pode permanecer est\u00e1vel quando milh\u00f5es de pessoas continuam sem uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. O futuro do Oriente M\u00e9dio depender\u00e1, em larga medida, da capacidade de transformar o intervalo entre uma guerra e outra em uma verdadeira transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Caso contr\u00e1rio, Gaza continuar\u00e1 sendo n\u00e3o apenas o s\u00edmbolo de uma guerra inconclusa, mas tamb\u00e9m o espelho das contradi\u00e7\u00f5es da ordem internacional contempor\u00e2nea.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Bruno Roque Younes<\/strong><\/em><br \/>\nBrasil<br \/>\nIntegrante<br \/>\nDepartamento de Medio Oriente<br \/>\nIRI-UNLP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Bruno Roque 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