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A pergunta que Israel, o Irã e o Hezbollah não querem responder

Em uma região acostumada a discursos inflamados, ameaças militares e declarações cuidadosamente calculadas, a entrevista concedida pelo presidente do Líbano, Joseph Aoun, à jornalista Christiane Amanpour chamou a atenção por um motivo simples: ela trouxe de volta uma pergunta que parece ter desaparecido do debate político do Oriente Médio. Afinal, para quem servem tantas guerras?

Ao longo da entrevista, Aoun dirigiu críticas simultaneamente ao Irã, ao Hezbollah e a Israel. Não se tratava de uma tentativa de agradar diferentes públicos, mas de um diagnóstico duro sobre a realidade libanesa. Quando afirmou ao governo iraniano que «este não é o seu país, é o nosso país», o presidente expressou um sentimento compartilhado por muitos libaneses que veem sua nação transformada, há décadas, em peça de um tabuleiro geopolítico muito maior.

A frase tem um peso que vai além da diplomacia. Ela questiona diretamente a lógica das potências regionais que utilizam territórios e populações como instrumentos de suas disputas estratégicas. O problema é que o Líbano não é apenas vítima dessa dinâmica. Ele tornou-se um dos seus símbolos mais evidentes.

Durante anos, o país foi apresentado como uma espécie de fronteira avançada dos conflitos do Oriente Médio. A influência iraniana por meio do Hezbollah, as operações militares israelenses, os interesses americanos e as disputas entre diferentes atores regionais transformaram o território libanês em um espaço onde a soberania frequentemente parece secundária diante das agendas externas.

Mas talvez a declaração mais importante de Joseph Aoun tenha sido outra. Ao afirmar que «o povo libanês está pagando o preço pelos seus interesses», o presidente deslocou a discussão do campo da estratégia para o campo humano. É uma observação tão óbvia quanto frequentemente ignorada.

Enquanto governos calculam ganhos geopolíticos e organizações armadas celebram demonstrações de força, são os civis que enterram seus mortos, abandonam suas casas e tentam reconstruir suas vidas após cada nova escalada militar. Essa realidade não é exclusiva do Líbano. Ela se repete em Gaza, no sul de Israel, na Síria, no Iêmen e em diversas outras áreas de conflito da região.

A entrevista também trouxe uma mensagem direta a Israel. Ao declarar que nenhuma solução militar produzirá segurança duradoura, Aoun questionou uma das premissas mais consolidadas da política regional contemporânea: a crença de que a superioridade militar pode resolver problemas essencialmente políticos.

Sua pergunta aos israelenses foi simples e desconfortável: «Vocês não estão cansados da guerra desde 1948?»

Independentemente das posições ideológicas de cada observador, trata-se de uma questão difícil de ignorar. Décadas de confrontos demonstraram que nenhuma das partes envolvidas alcançou uma vitória definitiva. Israel continua enfrentando ameaças à sua segurança. Os palestinos continuam sem uma solução para suas reivindicações nacionais. O Líbano continua vulnerável. O Hezbollah permanece armado. O Irã segue expandindo sua influência regional.

Todos os atores afirmam estar defendendo seus interesses. No entanto, os resultados sugerem uma realidade diferente: todos parecem presos em um ciclo que produz sofrimento contínuo sem oferecer soluções permanentes.

Isso não significa ignorar os desafios concretos enfrentados por Israel ou minimizar as ameaças representadas por grupos armados. Tampouco significa absolver o Hezbollah de sua responsabilidade na militarização do cenário libanês. O mérito da entrevista de Joseph Aoun está justamente em rejeitar explicações simplistas e reconhecer que a lógica da guerra permanente fracassou para todos os envolvidos.

Ao mesmo tempo, seria ingênuo acreditar que a simples defesa da soberania nacional seja suficiente para alterar essa realidade. O próprio Líbano enfrenta enormes limitações institucionais, econômicas e políticas. O Hezbollah continua exercendo uma influência que o Estado não consegue neutralizar. O Irã dificilmente abrirá mão de um de seus principais aliados regionais. Israel continuará priorizando sua segurança diante de ameaças reais e percebidas.

Por isso, a entrevista não deve ser lida como um anúncio de transformação imediata. Seu valor está em outro lugar. Ela representa uma tentativa de recolocar os cidadãos no centro de um debate frequentemente dominado por armas, alianças militares e cálculos estratégicos.

Talvez a principal contribuição de Joseph Aoun tenha sido lembrar algo que os líderes da região raramente admitem: a guerra pode produzir vitórias táticas, mas dificilmente produz paz. E sem paz, toda vitória acaba sendo temporária.

A pergunta que encerra sua reflexão continua sem resposta. Não apenas para Israel, mas também para o Hezbollah, para o Irã e para todos aqueles que enxergam o conflito como instrumento político: até quando os povos do Oriente Médio continuarão pagando o preço de guerras que nunca terminam?


Bruno Younes
Integrante
Departamento de Medio Oriente
IRI-ULP