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O Irã na Encruzilhada: Protestos, Estado e Reconfigurações Regionais

O que se desenrola no Irã desde o final de 2025 não pode ser compreendido apenas como mais um ciclo de protestos provocado pela alta do custo de vida. O que está em jogo é algo mais profundo e inquietante: a exaustão de um modelo político que já não consegue responder às necessidades materiais, simbólicas e morais de sua própria sociedade. A crise iraniana expõe, de forma crua, o distanciamento entre Estado e população e coloca em xeque um projeto de poder construído há mais de quatro décadas.

A inflação persistente, a desvalorização acelerada do rial (moeda nacional) e o encarecimento dos alimentos funcionam como gatilhos imediatos, mas não explicam sozinhos a magnitude das mobilizações. Esses elementos revelam o esgotamento de uma economia rentista, dependente da exportação de hidrocarbonetos e organizada para sustentar estruturas de poder militarizadas e clericais. As sanções internacionais agravaram o quadro, mas não o criaram. A insistência em atribuir toda a crise a fatores externos serve, muitas vezes, para ocultar decisões internas que privilegiaram a projeção geopolítica e a sobrevivência do regime em detrimento do bem-estar social.

O caráter dos protestos torna esse momento particularmente revelador. O descontentamento não surge apenas das periferias ou de setores historicamente marginalizados, mas também de grupos que durante décadas foram considerados pilares da estabilidade política, como comerciantes tradicionais e segmentos da classe média urbana. Quando aqueles que sustentaram o pacto social passam a questioná-lo abertamente, o problema deixa de ser conjuntural e se transforma em estrutural.

A resposta estatal aprofunda essa leitura. O uso recorrente da repressão, das detenções em massa e do bloqueio informacional não restabelece a ordem; antes, evidencia a fragilidade de um sistema político que já não encontra legitimidade suficiente para governar sem coerção. O controle substitui o consenso, e a força ocupa o lugar do diálogo. Essa dinâmica não resolve a crise, apenas a adia e a radicaliza.

Uma leitura decolonial permite escapar das armadilhas interpretativas que reduzem o Irã a uma caricatura entre atraso oriental e modernidade ocidental. A contestação em curso não se dirige apenas contra pressões externas, mas também contra hierarquias internas profundamente arraigadas. Mulheres, jovens e minorias étnicas emergem como protagonistas de uma disputa moral e política que desafia estruturas patriarcais, desigualdades sociais e mecanismos de controle sobre os corpos e as subjetividades.

O lema “Zan, Zendegi, Azadi” (Mulher, Vida, Liberdade) sintetiza esse embate de forma poderosa. Não se trata de um slogan importado, mas da expressão localizada de uma ética política que reivindica dignidade em um contexto marcado pela vigilância e pela normatização da vida cotidiana. Os protestos deixam de ser apenas uma reação à pobreza ou à inflação e assumem contornos civilizatórios ao questionar o próprio sentido da autoridade e da obediência.

No plano internacional, a crise iraniana rapidamente se converte em objeto de disputa narrativa. Discursos sobre direitos humanos e democracia reaparecem acompanhados de ameaças de sanções e pressões diplomáticas. Esse movimento exige cautela. A história recente demonstra que intervenções externas raramente produzem emancipação social e frequentemente reforçam dinâmicas de dominação. Transformações duradouras dependem de processos internos, por mais lentos, contraditórios e incertos que sejam.

O Irã encontra-se, portanto, em uma encruzilhada histórica. O aprofundamento do autoritarismo é uma possibilidade real, assim como a emergência de formas ainda indefinidas de recomposição política. O desfecho permanece em aberto, mas uma certeza se impõe: o pacto que sustentou a República Islâmica por décadas já não responde às expectativas de uma sociedade profundamente transformada.

Para quem observa a região a partir da América Latina, esse cenário impõe um desafio analítico e ético. Compreender o que ocorre no Irã exige abandonar explicações fáceis e reconhecer que a crise atual reflete tensões mais amplas do sistema internacional contemporâneo. Trata-se de um momento que interpela não apenas o Estado iraniano, mas as próprias formas como soberania, legitimidade e dignidade humana são pensadas no mundo de hoje.

Bruno Younes
Integrante
Departamento de Medio Oriente
IRI-UNLP