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Al-Sulta no Líbano: Quem Decide?

O que está em curso no Líbano ultrapassa a esfera de um simples ato jurídico contra o braço armado do Hezbollah. Trata-se de um momento que pode redefinir o próprio significado de soberania no país. Quando um governo decide declarar ilegal uma estrutura militar paralela que, por décadas, operou com autonomia estratégica, não está apenas enfrentando um grupo específico. Está enfrentando uma lógica histórica que corroeu, gradualmente, a autoridade do Estado.

Desde o fim da guerra civil, o sistema político libanês baseou-se em um delicado equilíbrio confessional. Esse arranjo evitou o retorno ao conflito aberto, mas também institucionalizou fragilidades. Entre elas, a mais sensível foi a coexistência entre forças armadas oficiais e um ator armado com capacidade de decisão própria sobre guerra e paz. Ao longo do tempo, essa dualidade deixou de ser provisória e passou a ser estrutural. O Hezbollah consolidou-se não apenas como milícia, mas como partido político, rede de assistência social e instrumento regional de projeção de poder do Irã.

Ignorar a dimensão social do Hezbollah seria um erro analítico. Em amplas áreas do sul do país e nos subúrbios de Beirute, o movimento construiu legitimidade concreta ao preencher lacunas deixadas pelo Estado. Escolas, hospitais, assistência às famílias de combatentes e infraestrutura básica tornaram-se parte de sua base de apoio. Essa capilaridade social explica por que o tema não pode ser reduzido a uma simples equação militar. Contudo, há uma distinção que precisa ser preservada com clareza. Assistência social não confere direito autônomo de manter um aparato armado paralelo ao Estado.

O princípio clássico das Relações Internacionais ensina que soberania implica monopólio legítimo da força. Quando um ator não estatal detém arsenal estratégico, capacidade de mobilização e autonomia decisória em matéria de segurança, o Estado torna-se refém da sua própria fragmentação. Foi isso que ocorreu em episódios de escalada contra Israel, nos quais decisões tomadas fora da estrutura governamental expuseram todo o território libanês a retaliações e custos econômicos severos.

O contexto de 2026 torna essa discussão ainda mais urgente. O Líbano atravessa um colapso econômico prolongado, com deterioração monetária, empobrecimento acelerado e descrédito internacional. Nenhum programa consistente de recuperação será viável enquanto persistir a percepção de que o país opera com soberania dividida. Investidores, organismos multilaterais e parceiros regionais observam não apenas indicadores financeiros, mas também estabilidade institucional e previsibilidade estratégica.

Do ponto de vista regional, a decisão possui implicações amplas. O Hezbollah não é um ator isolado. Ele integra um eixo geopolítico que conecta Teerã ao Levante. Qualquer limitação formal ao seu braço armado altera o cálculo estratégico do Irã e influencia o equilíbrio de dissuasão frente a Israel. Ao mesmo tempo, a medida pode ser interpretada por países árabes do Golfo como sinal de reaproximação e tentativa de neutralidade ativa por parte de Beirute. O Líbano encontra-se, mais uma vez, no cruzamento de forças maiores do que sua própria capacidade estrutural.

Há riscos evidentes. A ilegalização pode provocar resistência interna, tensões sectárias e reações externas. Processos de desmilitarização raramente são lineares. Exigem pactos políticos amplos, garantias de segurança e transições graduais. Uma imposição abrupta pode produzir instabilidade. Uma hesitação excessiva pode transformar o decreto em gesto simbólico vazio.

Ainda assim, é preciso reconhecer o significado político do momento. Estados não se fortalecem por omissão. A reconstrução institucional exige coragem e clareza de propósito. Se o Líbano deseja recuperar credibilidade, precisa afirmar, de maneira inequívoca, que a decisão sobre defesa e política externa pertence às suas instituições formais.

A história do Oriente Médio está repleta de exemplos em que a fragmentação do poder levou à erosão do Estado. Também mostra que reconstruções são possíveis quando liderança política, prudência estratégica e respaldo social convergem. O Líbano enfrenta um teste decisivo. Não se trata apenas do futuro de um movimento armado, mas da definição concreta de quem exerce autoridade legítima no território nacional.

Se o processo for conduzido com firmeza e responsabilidade, poderá marcar o início de uma nova etapa, na qual o país deixe de ser percebido como espaço de disputa por procuração e retome a condição de ator soberano. A tarefa é complexa, mas a alternativa é permanecer prisioneiro de uma ambiguidade que já cobrou um preço alto demais.

Bruno Younes
Brasil
Integrante
Departamento de Medio Oriente
IRI-UNLP