Quinze anos após o início da guerra na Síria, talvez a pergunta mais importante já não seja quem venceu. A pergunta verdadeira é: o que restou para o povo sírio?
Vistas de longe, as guerras costumam ser explicadas por presidentes, exércitos, alianças internacionais, grupos armados e disputas geopolíticas. Mas a guerra síria não pode ser compreendida apenas pelos nomes que ocuparam os palácios, os quartéis ou as mesas diplomáticas. É preciso olhar para quem esteve embaixo dos escombros. Para quem perdeu a casa. Para quem enterrou os filhos. Para quem atravessou fronteiras sem saber se um dia voltaria.
Antes da guerra, a Síria era uma das grandes sociedades históricas do Oriente Médio, um território onde civilizações se encontraram ao longo de milênios. Damasco, uma das cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo, Aleppo, Palmira, Homs e tantas outras carregavam uma memória que ultrapassava qualquer governo ou regime. A guerra, porém, não destruiu apenas prédios: atingiu o que sustenta uma sociedade — a convivência, a memória, a família, o sentimento de pertencimento.
Quando o conflito começou, em 2011, no contexto da Primavera Árabe, muitos sírios acreditaram estar vivendo um momento de transformação histórica. Havia insatisfação política, repressão, desigualdade e décadas de autoritarismo. Mas o que nasceu como contestação popular acabou engolido por uma guerra que extrapolou as fronteiras do próprio país. Potências estrangeiras entraram em cena, interesses regionais se chocaram, e a Síria se transformou em palco de disputas que, muitas vezes, pouco tinham a ver com as necessidades de sua população.
Esse é um dos aspectos mais cruéis dessa guerra: os sírios deixaram de ser sujeitos de sua própria história para viver dentro de um conflito disputado por muitos outros.
A Rússia tinha seus interesses. Os Estados Unidos, os seus. O Irã, a Turquia, Israel e diferentes grupos políticos e militares, também os seus. Enquanto isso, o povo sírio fazia o que os povos fazem quando os poderosos transformam sua terra em campo de batalha: tentava sobreviver.
Uma geração inteira cresceu sem saber o que é viver em um país em paz. Há jovens sírios nascidos depois de 2011 que conhecem sua pátria apenas por ruínas, campos de deslocados, histórias contadas pelos pais ou imagens de cidades que talvez nunca tenham visto como eram antes. Que futuro se constrói quando a infância é marcada pelo medo? O que acontece com uma sociedade quando milhões de pessoas aprendem, desde cedo, que a própria casa pode desaparecer de um dia para o outro?
O tempo passou — e talvez essa seja outra tragédia: o mundo se acostumou com a Síria.
As grandes imagens de destruição deixaram as capas dos jornais. Outras guerras ocuparam as manchetes. Outras tragédias passaram a exigir nossa atenção. Mas a população síria não teve o privilégio de mudar de assunto. Para quem viveu a guerra, ela não terminou quando a televisão deixou de transmitir suas imagens: ela continua na pobreza, na fome, na ausência de perspectivas, nas famílias separadas e nas cidades que ainda carregam as cicatrizes de anos de violência.
Quinze anos depois, é impossível falar da guerra na Síria sem reconhecer o fracasso político e moral que ela representa — não apenas pelo que aconteceu dentro do país, mas pelo que o mundo permitiu que acontecesse. A comunidade internacional assistiu à destruição de uma sociedade inteira enquanto discutia resoluções, linhas vermelhas, zonas de influência e interesses estratégicos. A diplomacia falou durante anos; o povo, enquanto isso, continuou morrendo, fugindo e perdendo tudo.
Talvez essa seja a maior consequência da guerra: a destruição da possibilidade de uma vida normal.
A guerra roubou dos sírios algo que raramente aparece nas estatísticas. Roubou aniversários celebrados em família. Roubou o caminho cotidiano até a escola. Roubou a possibilidade de envelhecer na mesma casa. Roubou a certeza de que os filhos viveriam no mesmo país que os pais. Roubou, até, o direito de imaginar o futuro.
Por isso, quinze anos depois, a Síria não deve ser lembrada apenas como uma guerra, mas como uma tragédia humana e política — uma tragédia que começou nas contradições de um regime autoritário, mas que se aprofundou pela incapacidade do mundo de impedir que uma população inteira fosse sacrificada no altar dos interesses geopolíticos.
A Síria continua existindo. Seu povo continua existindo. E talvez essa seja, ao mesmo tempo, sua maior dor e sua maior resistência.
Porque, depois de quinze anos entre ruínas, exílio e perdas irreparáveis, milhões de sírios ainda carregam consigo uma ideia simples e profundamente humana: a esperança de voltar a ter a vida que a guerra lhes roubou.
E nenhum povo deveria precisar esperar quinze anos para ter o direito de viver novamente.
Bruno Younes
Brasil
Integrante
Departamento de Medio Oriente
IRI-UNLP