Há decisões políticas que não inauguram uma realidade. Apenas admitem aquilo que sempre existiu. O recente decreto assinado pelo presidente sírio Ahmed al-Sharaa, reconhecendo o curdo como língua nacional e restaurando a cidadania a milhares de curdos sírios, é exatamente isso. Um reconhecimento tardio de uma existência que resistiu apesar do Estado, e não graças a ele.
Por décadas, falar curdo na Síria foi um ato silencioso de resistência. Não constava em documentos, não era permitido nas escolas, não era reconhecido pelo poder central. A língua sobreviveu nas casas, nas canções, nos nomes sussurrados, nos rituais familiares. Sobreviveu porque identidade não se decreta. Se vive.
A retirada da cidadania de dezenas de milhares de curdos, iniciada nos anos 1960, transformou pessoas em sombras jurídicas. Gente que nasceu, cresceu e trabalhou na Síria passou a não existir oficialmente. Sem documentos, sem direitos, sem voz. Um povo inteiro foi empurrado para a condição de estrangeiro em sua própria terra. Isso não foi um erro administrativo. Foi um projeto político.
Por isso, o decreto agora assinado carrega um peso histórico enorme. Reconhecer a língua curda e devolver a cidadania é, ainda que tardiamente, admitir que o projeto de apagamento falhou. O Estado tentou silenciar, assimilar, diluir e não conseguiu. A identidade curda atravessou o século XX e chegou ao XXI mais consciente de si do que nunca.
Mas é preciso dizer com clareza. Esse gesto não nasce do nada. Ele ocorre depois de anos em que os curdos, especialmente no norte da Síria, organizaram suas próprias formas de vida política, social e cultural. Enquanto o Estado ruía em meio à guerra civil, comunidades inteiras passaram a gerir educação, justiça, segurança e economia local. Não esperaram autorização. Agiram porque precisavam sobreviver.
Nesse sentido, o reconhecimento estatal vem depois do fato consumado. A língua curda já era língua pública nas escolas comunitárias. A cidadania já era exercida na prática, mesmo sem papel timbrado. O decreto tenta alcançar uma realidade que se moveu à frente do Estado.
Isso não significa que o gesto seja irrelevante. Ao contrário. Em uma região marcada por autoritarismos persistentes, admitir o caráter plurinacional e pluricultural da Síria é uma ruptura simbólica importante. Estados do Oriente Médio foram construídos sobre a ideia da homogeneidade forçada. Uma língua, uma identidade, uma narrativa oficial. Toda diferença era vista como ameaça. Reconhecer o curdo é admitir que essa lógica fracassou.
A pergunta que permanece, no entanto, é incômoda e necessária. Até onde vai esse reconhecimento. Será ele acompanhado de garantias reais, participação política e respeito às formas de organização já existentes. Ou será apenas uma tentativa de reinscrever o controle estatal sobre territórios e populações que aprenderam a viver sem ele.
A história do povo curdo ensina prudência. Direitos concedidos de cima para baixo, sem enraizamento comunitário, costumam ser frágeis. Podem ser retirados com a mesma caneta que os concedeu. Por isso, mais do que celebrar o decreto, é fundamental observá-lo com atenção crítica.
Ainda assim, há algo que nem o mais autoritário dos Estados consegue controlar completamente. O sentido simbólico da linguagem. Reconhecer uma língua é reconhecer uma memória coletiva, uma visão de mundo, uma forma própria de narrar o passado e imaginar o futuro. Nesse aspecto, o decreto sírio rompe um silêncio imposto à força por gerações.
Talvez este seja o ponto mais profundo desse momento histórico. O Estado, finalmente, admite que não conseguiu vencer o tempo. O povo que tentou apagar segue falando, ensinando seus filhos, organizando sua vida e reivindicando dignidade.
A cidadania restaurada e a língua reconhecida não encerram a questão curda na Síria. Mas deixam algo claro. O povo curdo não precisa mais provar que existe. Isso, a história já provou por ele.
Bruno Roque Younes
Profesor brasileño
Integrante
Departamento de Medio Oriente
IRI – UNLP