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Líbano, 30 dias: a normalização do inaceitável

Um mês depois, já não há espaço para leituras superficiais.

O que se desenrola no Líbano vai além de uma mera resposta israelense ao Hezbollah. Trata-se, na realidade, de uma engrenagem política mais ampla, onde segurança, poder regional e cálculo estratégico se sobrepõem sistematicamente à vida civil.

Israel opera sob uma doutrina que não é nova: a de dissuasão ampliada. Não se trata apenas de neutralizar ameaças imediatas, mas de impor um custo tão elevado ao adversário e ao território onde ele se insere que qualquer futura ação se torne, teoricamente, inviável. O problema é que, na prática, essa lógica dilui as fronteiras entre combatente e civil. Infraestrutura, bairros inteiros e rotas de deslocamento passam a ser considerados alvos dentro de um raciocínio estratégico que transforma o espaço social em extensão do campo de batalha.

Por outro lado, o Hezbollah não é apenas um grupo armado. Ele é, ao mesmo tempo, ator político, força militar e estrutura social enraizada no sul do país. Essa condição complexa cria um cenário particularmente delicado. Suas operações não ocorrem em um vazio geográfico, mas em meio a comunidades civis. Isso não apenas expõe essas populações, como também tensiona qualquer tentativa de resposta que respeite limites claros. Ainda assim, reconhecer essa complexidade não pode servir como justificativa automática para a ampliação indiscriminada da força.

O que emerge, então, é um conflito marcado por assimetria, não apenas de poder militar, mas de capacidade de impor narrativas. Israel sustenta sua ação no discurso da autodefesa. O Hezbollah, na lógica da resistência. No meio disso, o Líbano como Estado revela sua fragilidade estrutural, incapaz de controlar plenamente seu território, atravessado por crises internas e historicamente exposto a disputas externas.

Mas há um elemento ainda mais decisivo: a dimensão internacional.

A reação global, até aqui, tem sido previsível e politicamente reveladora. Potências ocidentais reiteram o direito de Israel à defesa, enquanto apelos por contenção aparecem de forma tímida e, muitas vezes, tardia. Ao mesmo tempo, organismos multilaterais demonstram limitações concretas em impor qualquer tipo de freio efetivo à escalada. O resultado é a consolidação de uma ordem internacional seletiva, onde a aplicação de princípios depende menos de normas universais e mais de alinhamentos estratégicos.

E é justamente essa seletividade que sustenta o ciclo.

Porque, no terreno, os efeitos são claros: deslocamentos em massa, colapso de serviços básicos e uma população civil capturada entre forças que operam em lógicas que não a incluem como prioridade. Crianças fora da escola, famílias em fuga, comunidades redesenhadas pela violência.. Isso não é um efeito colateral. É parte do funcionamento do conflito.

Politicamente, o que se observa é a continuidade de um modelo em que a força substitui a mediação, e a urgência militar silencia qualquer horizonte diplomático consistente. Não há, até o momento, sinais concretos de uma estratégia internacional capaz de interromper essa dinâmica. Há apenas tentativas de gestão de crise.

E isso precisa ser dito com clareza: gerir a crise não é resolvê-la.

Um mês depois, o que está em jogo não é apenas a escalada entre Israel e Hezbollah. É a reafirmação de uma arquitetura política internacional que tolera, e em certa medida legitima, a repetição desse tipo de cenário.

No fim, permanece uma constatação incômoda. Enquanto a política aceitar que a estabilidade de alguns pode depender da instabilidade permanente de outros, conflitos como este não serão exceções.

Serão regra.

Bruno Younes
Brasil
Integrante
Departamento de Medio Oriente
IRI-UNLP