Aos 78 anos, a Nakba deixou de ser apenas um marco de 1948 para se afirmar como uma das mais persistentes continuidades históricas do mundo contemporâneo. O que começou como expulsão em massa, destruição de aldeias e deslocamento forçado consolidou-se, ao longo das décadas, como uma experiência duradoura de exílio, fragmentação territorial e resistência palestina.
Em 1948, com a criação do Estado de Israel, mais de 700 mil palestinos foram expulsos ou obrigados a abandonar suas terras na Palestina. Centenas de vilas foram apagadas, famílias inteiras atravessaram fronteiras sem garantias de retorno, e uma sociedade historicamente enraizada foi desarticulada em poucos meses. À época, muitos enxergaram esse processo como consequência direta de uma guerra. A história demonstrou algo mais profundo: a Nakba não se encerraria ali.
A comparação entre aquele momento e o presente revela uma continuidade inquietante. Em 1948, o deslocamento ocorreu de forma abrupta, visível e concentrada no tempo. Hoje, ele se apresenta de maneira mais difusa, porém constante. A perda territorial já não depende apenas de grandes ofensivas militares, mas de um conjunto de práticas que, progressivamente, reconfiguram o espaço e a vida cotidiana dos palestinos. O que antes foi uma ruptura imediata transformou-se em uma condição prolongada.
Há também uma dimensão internacional decisiva para compreender essa transição histórica. O mundo de 1948 ainda estava profundamente marcado pela reorganização do pós-guerra e pelo impacto do Holocausto. A criação de Israel foi inserida nesse contexto, frequentemente associada à necessidade de reparação histórica ao povo judeu. No entanto, para os palestinos, isso significou o deslocamento de uma tragédia europeia para o Oriente Médio. Essa tensão permanece no centro das disputas políticas e interpretativas até hoje.
O presente acrescenta novos elementos a essa leitura. A circulação de informações em tempo real expôs de maneira mais direta as dinâmicas do conflito. Episódios de violência, destruição de infraestrutura civil e deslocamento de populações são acompanhados globalmente, produzindo reações que não existiam na mesma escala no século XX. Ainda assim, essa visibilidade ampliada não resultou, até o momento, em uma solução política duradoura.
Outro aspecto fundamental é a permanência da memória. Diferentemente de outros processos históricos marcados pelo apagamento cultural, a identidade palestina foi preservada e transmitida entre gerações. A Nakba tornou-se não apenas um evento histórico, mas um elemento estruturante da consciência coletiva palestina. O exílio deixou de ser circunstancial e passou a definir a própria experiência histórica de um povo.
Ao longo desses 78 anos, o conflito também produziu transformações internas significativas em Israel e no sistema internacional. O que antes era amplamente interpretado sob a lógica da segurança passou a ser cada vez mais analisado a partir de categorias como direitos humanos, autodeterminação e desigualdade estrutural. Essa mudança de perspectiva indica que o próprio significado da Nakba permanece em disputa.
A história ensina que certos acontecimentos não permanecem estáticos. Eles se transformam, adaptam-se às circunstâncias, mas preservam sua essência. A Nakba é um desses casos. Em 1948, foi vivida como ruptura. Hoje, manifesta-se como permanência.
Setenta e oito anos depois, compreendê-la exige mais do que memória. Exige reconhecer sua continuidade histórica, sua presença no mundo contemporâneo e seu peso na definição do futuro do Oriente Médio.
Bruno Younes
Brasil
Integrante
Departamento de Medio Oriente
IRI-UNLP