En este momento estás viendo Três anos depois: Gaza

Três anos depois: Gaza

aza ultrapassou aquilo que normalmente se entende como dano colateral de uma campanha militar. Dados da ONU indicavam, em junho de 2026, que aproximadamente 82% das estruturas existentes na Faixa haviam sido danificadas, incluindo mais de 134 mil estruturas classificadas como destruídas. Mais de 328 mil unidades habitacionais haviam sido afetadas. Ao mesmo tempo, estimativas da ONU apontavam para mais de 60 milhões de toneladas de escombros produzidos desde outubro de 2023. A destruição das redes de saúde, educação, abastecimento de água, saneamento e moradia significa que a reconstrução não será simplesmente uma questão de erguer prédios novamente. Trata-se de reconstruir condições mínimas de reprodução da vida social. O problema é agravado pelo fato de que cerca de 2,1 milhões de pessoas permanecem deslocadas, em diferentes graus, dentro de um território extremamente reduzido.

Essa dimensão ajuda a compreender por que o conflito ultrapassa a categoria tradicional de guerra entre forças armadas. A destruição acumulada produz efeitos intergeracionais. Crianças que perderam familiares, casas, escolas e referências comunitárias carregam consequências que não terminam com o cessar-fogo. Mulheres passaram a assumir, em número crescente, a responsabilidade exclusiva por seus domicílios, enquanto o sistema de saúde permanece profundamente comprometido. Em agosto de 2026, a UNRWA classificava o sistema de saúde de Gaza como estruturalmente colapsado, após anos de destruição, deslocamentos, escassez de medicamentos, combustível e equipamentos. A guerra, nesse sentido, produz uma segunda temporalidade: mesmo quando os tiros diminuem, seus efeitos continuam operando sobre a sociedade.

No plano geopolítico, Gaza também alterou significativamente o equilíbrio regional. O conflito aproximou diferentes teatros de guerra: Israel e Hezbollah no Líbano, Israel e grupos apoiados pelo Irã no Iraque e na Síria, os ataques dos houthis no Mar Vermelho e, posteriormente, a escalada direta envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã. O resultado foi uma erosão da ideia de que o conflito israelo-palestino poderia permanecer isolado das demais disputas do Oriente Médio. Ao mesmo tempo, a centralidade dos Estados Unidos permaneceu evidente. Washington continuou sendo o principal aliado estratégico de Israel e participou diretamente das negociações de cessar-fogo, ao lado de Egito e Catar. Contudo, essa influência coexistiu com sucessivos bloqueios diplomáticos no Conselho de Segurança. Em junho de 2025, por exemplo, os Estados Unidos vetaram uma resolução de cessar-fogo que havia recebido 14 votos favoráveis.

China e Rússia, por sua vez, encontraram na crise uma oportunidade para contestar a centralidade diplomática ocidental, embora sua atuação tenha sido diferente da norte-americana. Pequim ampliou sua presença diplomática, apoiou a fórmula de “palestinos governando a Palestina” e reiterou a defesa da solução de dois Estados. Moscou manteve posição semelhante em favor de um Estado palestino ao lado de Israel, mas sua capacidade de transformar discurso diplomático em mediação efetiva permaneceu limitada. O resultado é uma ordem regional mais fragmentada, na qual Estados Unidos, China, Rússia, Irã, Turquia, países do Golfo e atores não estatais disputam influência sem que nenhum deles tenha conseguido construir uma arquitetura de segurança regional duradoura.

Essa fragmentação também expôs os limites do sistema internacional de responsabilização. O Tribunal Penal Internacional emitiu, em novembro de 2024, mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant por alegados crimes de guerra e crimes contra a humanidade, além de ter emitido mandado contra Mohammed Deif por alegados crimes cometidos no contexto do conflito. São decisões judiciais relevantes, mas mandados de prisão não equivalem a condenações e sua execução depende da cooperação dos Estados. Paralelamente, a Corte Internacional de Justiça determinou medidas provisórias no processo movido pela África do Sul contra Israel sob a Convenção do Genocídio, estabelecendo obrigações destinadas à prevenção de atos abrangidos pela Convenção e à garantia de assistência humanitária. O processo sobre o mérito, contudo, permanece distinto das medidas provisórias e ainda não produziu uma sentença final sobre a alegação de genocídio. O problema central não é, portanto, a inexistência completa de normas, mas a distância entre a existência da norma e sua capacidade de produzir efeitos concretos em uma guerra.

No plano interno, tanto Israel quanto os territórios palestinos enfrentam uma crise de representação política. Em Israel, a guerra tornou-se inseparável da disputa sobre responsabilidade pelo fracasso de segurança de 7 de outubro, pela condução militar do conflito e pelo destino dos reféns. A eleição israelense prevista para outubro de 2026 ocorre em meio a uma disputa política na qual Netanyahu procura apresentar-se como garantidor da segurança nacional, enquanto opositores procuram associar sua liderança às falhas anteriores e aos custos prolongados da guerra. Entre os palestinos, o problema é ainda mais estrutural. A divisão entre Fatah e Hamas permanece, enquanto a Autoridade Palestina enfrenta uma profunda crise de legitimidade. Mahmoud Abbas anunciou eleições legislativas para novembro de 2026, as primeiras em duas décadas, mas permanecem dúvidas sobre sua realização, diante de divisões internas, obstáculos logísticos e da própria fragmentação territorial palestina.

É nesse ponto que aparece a questão decisiva do chamado “dia seguinte”. Cessar-fogo não significa necessariamente paz, e reconstrução não significa automaticamente resolução política. O futuro de Gaza depende de perguntas ainda abertas: quem governará o território, quem controlará suas fronteiras, quem exercerá o monopólio da força, como ocorrerá o desarmamento dos grupos armados, qual será o papel da Autoridade Palestina, quem financiará a reconstrução e quais garantias de segurança serão oferecidas a israelenses e palestinos. A experiência recente demonstra que acordos temporários fracassam quando as partes não conseguem conciliar objetivos estratégicos incompatíveis. Israel insiste na necessidade de impedir que Gaza volte a constituir uma base para ataques; setores palestinos defendem o fim da ocupação, a autodeterminação e a soberania nacional. Entre essas posições permanece um enorme vazio institucional. A proposta norte-americana de uma estrutura internacional para a administração e reconstrução de Gaza representa uma tentativa de preenchê-lo, mas sua implementação também levanta questões sobre soberania palestina, legitimidade política e o papel das Nações Unidas.

Três anos depois de 7 de outubro, Gaza tornou-se, portanto, mais do que um episódio particularmente devastador do conflito israelo-palestino. Ela passou a representar uma crise de toda uma arquitetura internacional. A incapacidade de impedir a destruição em larga escala, a dificuldade de fazer cumprir decisões judiciais e a paralisia recorrente do Conselho de Segurança revelam uma ordem internacional na qual o direito continua existindo, mas sua aplicação depende fortemente da correlação de forças entre os Estados. Ao mesmo tempo, a guerra demonstrou que a segurança de Israel, a autodeterminação palestina e a estabilidade regional não podem ser tratadas como problemas independentes.

O verdadeiro desafio do pós-guerra será, portanto, impedir que Gaza seja apenas reconstruída fisicamente para permanecer politicamente destruída. Reconstruir casas sem reconstruir instituições, escolas sem reconstruir perspectivas de futuro e infraestrutura sem criar um horizonte político significaria apenas preparar o terreno para uma nova rodada de violência. O terceiro aniversário de outubro de 2023 deveria ser compreendido menos como uma data para encerrar uma narrativa e mais como um momento para reconhecer que nenhuma ordem regional pode permanecer estável quando milhões de pessoas continuam sem uma solução política para sua própria existência. O futuro do Oriente Médio dependerá, em larga medida, da capacidade de transformar o intervalo entre uma guerra e outra em uma verdadeira transição política. Caso contrário, Gaza continuará sendo não apenas o símbolo de uma guerra inconclusa, mas também o espelho das contradições da ordem internacional contemporânea.

 

Bruno Roque Younes
Brasil
Integrante
Departamento de Medio Oriente
IRI-UNLP