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Adeus, Aiatolá Ali Khamenei

No tabuleiro das geopolíticas que desafiam a hegemonia ocidental, mais um líder deixa a cena. As mãos erguidas daqueles que se despedem de seu guia transformam-se em um pacto silencioso: uma última homenagem a quem, para seus apoiadores, simbolizou a resistência ao imperialismo e à influência das potências ocidentais. A bandeira que cobre o caixão torna-se mais do que um emblema nacional; converte-se em um símbolo de continuidade política e de uma identidade construída em torno da soberania e da resistência.

Falecido em 28 de fevereiro de 2026, o Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, não ocupava apenas o posto máximo do Estado. Para milhões de iranianos e para os grupos alinhados ao chamado «Eixo da Resistência», representava uma figura de autoridade moral, religiosa e política. Sob sua liderança, consolidou-se um projeto de Estado que, desde a Revolução Islâmica de 1979, marcou profundamente a trajetória do Irã contemporâneo.

Seu funeral, entretanto, extrapolou a dimensão de uma cerimônia de despedida. Constituiu-se em um ato cuidadosamente elaborado de comunicação política. As delegações estrangeiras que prestaram homenagens foram recebidas com versículos específicos do Corão, selecionados de maneira altamente simbólica:

  • Arábia Saudita: «Dois exércitos se encontram na batalha: um luta com Deus, e o outro O nega.» (Surah Al-Imran, 3:13)
  • Turquia: «Eleva-se aqueles que lutam, em vez daqueles que permanecem em casa.» (Surah An-Nisa, 4:95)
  • Líbano: «Sobre as pessoas que se recusaram a se sacrificar quando pedido.» (Surah Muhammad, 47:38)
  • Hezbollah: «Não se sintam fracos ou enlutados; vocês são superiores, se forem crentes.» (Surah Al-Imran, 3:139)
  • Hamas: «Homens que honraram sua aliança com Deus; alguns morreram, outros ainda aguardam.» (Surah Al-Ahzab, 33:23)
  • Houthis: «Louva os crentes que combateram sem enfraquecer.» (Surah Al-Imran, 3:146)
  • Qatar: «Sobre o perdão e o favor divino.» (Surah Al-Imran, 3:159)

A questão que se impõe é outra: por que o funeral do Líder Supremo ocorreu apenas quatro meses após sua morte?

Uma cerimônia dessa magnitude dificilmente poderia ser realizada em meio a um cenário de guerra, instabilidade regional e riscos à segurança. Contudo, o intervalo de quatro meses parece transcender a necessidade logística. Sob uma perspectiva de comunicação política, o adiamento pode ser interpretado como parte de uma estratégia cuidadosamente planejada.

A escolha do dia 4 de julho para o início das cerimônias, justamente quando os Estados Unidos celebram os 250 anos de sua Independência conferiu ao funeral uma dimensão simbólica adicional. A coincidência de datas permitiu que a despedida de Khamenei dialogasse, ainda que indiretamente, com um dos principais marcos da narrativa nacional norte-americana.

Nessa leitura, o luto iraniano transforma-se em uma mensagem geopolítica. Enquanto Washington celebra sua independência e o protagonismo histórico dos Estados Unidos, Teerã projeta uma narrativa alternativa, centrada na resistência às sanções econômicas, às intervenções militares e às formas de influência que identifica como expressão do poder ocidental sobre o Sul Global.

Independentemente de ter sido uma escolha motivada exclusivamente por razões simbólicas ou também por fatores operacionais, o resultado foi inequívoco: o funeral converteu-se em um instrumento de diplomacia visual. Mais do que homenagear um líder, a cerimônia reafirmou a continuidade de um projeto político e transmitiu aos aliados e adversários uma mensagem de permanência. Na linguagem da geopolítica, até mesmo o calendário pode tornar-se um campo de disputa, e um funeral pode ser transformado em uma declaração estratégica de poder.

Bruno Younes
Brasil
Integrante
Departamento de Medio Oriente
IRI-UNLP