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Entre Gaza e Cisjordânia – O futuro ainda é uma promessa ou apenas repetição?

Desde o colapso formal do Império Otomano em 1922, no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, e da subsequente imposição de mandatos europeus entre 1920 e 1948, o Oriente Médio passou por um processo de formação estatal caracterizado por forte descontinuidade entre instituições formais e estruturas sociais pré-existentes. No caso palestino, essa disjunção se intensifica após 1948 e assume contornos institucionais específicos entre 1993 e 1995, com os Acordos de Oslo, que instituem a Autoridade Nacional Palestina como entidade administrativa limitada, sem soberania plena e inserida em um regime de ocupação.

Esse arranjo produz um sistema político híbrido, no qual a autoridade formal é simultaneamente reconhecida e constrangida, enquanto formas paralelas de poder continuam a operar com base em legitimidades concorrentes. A fragmentação territorial e política entre Cisjordânia e Faixa de Gaza, consolidada após 2006, aprofunda esse quadro ao institucionalizar uma dualidade de governança.

Nesse contexto, as eleições realizadas em abril de 2026, mais de duas décadas após o ciclo eleitoral iniciado em 2005 e culminado em 2006, devem ser interpretadas não como um mecanismo clássico de alternância de poder, mas como um processo de reprodução institucional. A vitória de candidatos associados ao Fatah, sob a liderança de Mahmoud Abbas, indica a manutenção de uma elite política incumbente que opera com baixos níveis de competição efetiva e limitada renovação de quadros.

A ausência do Hamas altera substancialmente a natureza do pleito. Em termos analíticos, trata-se de uma eleição com restrição de oferta política, o que compromete a capacidade do processo de refletir preferências sociais agregadas. Em sistemas competitivos, a exclusão de um ator com significativa base de apoio distorce o campo eleitoral e reduz a validade representativa dos resultados.

Ainda assim, o desempenho de listas associadas informalmente ao Hamas em Deir el-Balah sugere a persistência de clivagens políticas estruturais que não são absorvidas pelas instituições formais. Esse dado evidencia um fenômeno recorrente em sistemas políticos com baixa institucionalização: a dissociação entre legitimidade eleitoral e legitimidade sociopolítica. Ou seja, a capacidade de mobilização e representação não se esgota nos canais institucionais disponíveis.

O resultado geral aponta para um padrão de hegemonia institucional com contestação social latente. A Autoridade Nacional Palestina mantém controle administrativo na Cisjordânia, mas não monopoliza a representação política no sentido substantivo. Isso configura um sistema no qual a governabilidade é assegurada mais por controle institucional do que por consenso político amplo.

Uma leitura orientada por categorias da ciência política indica que o caso palestino se aproxima de modelos de autoritarismo competitivo ou institucionalismo frágil, nos quais eleições existem, mas operam sob condições assimétricas. Nesse tipo de arranjo, o processo eleitoral cumpre funções de legitimação e administração local, sem necessariamente produzir accountability efetiva ou alternância de poder.

Assim, essas eleições não devem ser interpretadas como um avanço democrático em sentido estrito, mas como a reafirmação de um equilíbrio político restrito, condicionado por fatores históricos, institucionais e estruturais que limitam tanto a competição quanto a representação.

Bruno Younes
Brasil
Integrante
Departamento de Medio Oriente
IRI-UNLP