Quem governa o Líbano? A crise da soberania estatal diante do Hezbollah em 2026

Departamento de Medio Oriente

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Quem governa o Líbano?
A crise da soberania estatal diante do Hezbollah em 2026

Bruno Roque Younes

Os acontecimentos registrados no Líbano entre janeiro e maio de 2026 reacenderam debates históricos sobre soberania, autoridade política e monopólio da força. A escalada militar envolvendo Israel e Hezbollah evidenciou, mais uma vez, a coexistência de diferentes centros de poder dentro do território libanês. Embora o Estado mantenha instituições formalmente responsáveis pela defesa nacional, a capacidade militar e a influência política do Hezbollah continuam desempenhando papel central na definição das dinâmicas de segurança do país. Este trabalho busca analisar como a crise de 2026 revelou os limites da soberania estatal libanesa, examinando as relações entre governo, forças armadas, Hezbollah e atores internacionais. Argumenta-se que os acontecimentos recentes não representam uma ruptura, mas a continuidade de um modelo político caracterizado pela fragmentação do poder e pela disputa permanente em torno da autoridade estatal.

Poucos países contemporâneos apresentam uma estrutura política tão singular quanto o Líbano. Desde o fim da Guerra Civil Libanesa (1975-1990), o país tem buscado equilibrar instituições estatais formais, sistemas de representação confessional e a presença de atores políticos armados com significativa influência territorial e social. Durante os primeiros meses de 2026, essa complexa arquitetura institucional foi novamente colocada à prova. A intensificação dos confrontos na fronteira sul não apenas produziu impactos militares e humanitários, mas também reabriu uma questão fundamental para a política libanesa: quem exerce efetivamente a autoridade sobre a segurança nacional?

A pergunta é particularmente relevante porque, embora o Estado libanês seja internacionalmente reconhecido como soberano, importantes funções relacionadas à defesa e à dissuasão militar permanecem associadas ao Hezbollah. Essa situação desafia a definição clássica de Estado formulada por Weber (1922), para quem a autoridade estatal se caracteriza pelo monopólio legítimo da força dentro de um território determinado. A guerra de 2026 não criou essa contradição. Contudo, ela a tornou novamente visível.

Um Estado construído sobre o equilíbrio das diferenças

A formação do Estado libanês está diretamente relacionada à diversidade religiosa, étnica e cultural que caracteriza a sociedade do país. Diferentemente de outros Estados do Oriente Médio constituídos a partir de identidades nacionais relativamente homogêneas, o Líbano consolidou-se como um espaço de convivência entre múltiplas comunidades religiosas, incluindo cristãos maronitas, cristãos ortodoxos, muçulmanos sunitas, muçulmanos xiitas, drusos e outros grupos menores. Essa pluralidade moldou profundamente as instituições políticas e os mecanismos de distribuição do poder.

As bases do sistema político contemporâneo foram estabelecidas durante o período do Mandato Francês (1920-1943) e consolidadas com o chamado Pacto Nacional de 1943, acordo informal que definiu a repartição dos principais cargos do Estado entre as diferentes comunidades religiosas. A lógica desse arranjo era simples: garantir que nenhum grupo monopolizasse o poder político e assegurar a participação das principais correntes religiosas na condução do país.

Dessa forma, a Presidência da República passou a ser ocupada por um cristão maronita, o cargo de primeiro-ministro por um muçulmano sunita e a presidência do Parlamento por um muçulmano xiita. Posteriormente, após a Guerra Civil Libanesa (1975-1990), o Acordo de Taif, firmado em 1989, reformulou parte desse sistema ao redistribuir competências entre os poderes do Estado e ampliar a participação muçulmana nas instituições nacionais. Ainda assim, manteve-se a lógica fundamental do compartilhamento confessional do poder.

Ao longo da história do Líbano, esse modelo contribuiu para evitar a exclusão política de grupos importantes e funcionou como um mecanismo de acomodação das diferenças em uma sociedade marcada por identidades múltiplas. Entretanto, o mesmo sistema produziu efeitos contraditórios. Em vez de estimular a construção de uma identidade nacional integrada, fortaleceu estruturas políticas baseadas em lideranças comunitárias, redes clientelistas e partidos associados a interesses confessionais específicos.

Na prática, muitos cidadãos passaram a estabelecer suas relações políticas não prioritariamente com o Estado, mas com lideranças religiosas, partidos ou organizações comunitárias capazes de oferecer proteção, serviços e representação. Como observa Salamey (2014), o sistema confessional libanês produziu uma forma de governança baseada no equilíbrio entre comunidades, mas também dificultou a consolidação de instituições estatais plenamente autônomas e capazes de atuar acima das divisões sectárias.

Essa dinâmica tornou-se ainda mais evidente em períodos de crise. Diante das limitações do Estado para fornecer serviços básicos de maneira uniforme, diferentes organizações passaram a ocupar espaços tradicionalmente associados ao poder público. Redes comunitárias, fundações religiosas, associações beneficentes e partidos políticos desenvolveram sistemas próprios de assistência social, educação, saúde e apoio econômico.

Foi nesse contexto que o Hezbollah ampliou sua influência. Desde sua fundação, em 1982, a organização investiu não apenas na construção de uma capacidade militar significativa, mas também na criação de uma extensa rede de serviços voltados principalmente para comunidades xiitas. Hospitais, escolas, centros de assistência social, programas habitacionais e iniciativas de reconstrução passaram a integrar sua atuação cotidiana, fortalecendo vínculos entre a organização e parcelas importantes da população.

O resultado foi a formação de uma estrutura híbrida de poder, na qual funções tradicionalmente associadas ao Estado passaram a ser compartilhadas por diferentes atores. Em determinados territórios, especialmente no sul do país e em bairros da periferia de Beirute, a presença do Hezbollah tornou-se tão relevante para a vida cotidiana quanto a das próprias instituições governamentais.

Essa realidade ajuda a compreender por que os acontecimentos de 2026 ultrapassam a dimensão estritamente militar. A crise revelou não apenas uma disputa relacionada à seguran ça nacional, mas também um problema estrutural da política libanesa: a coexistência entre um Estado formalmente soberano e organizações que exercem, simultaneamente, funções sociais, políticas e militares. Nesse sentido, a questão central não é apenas quem controla as armas, mas quem é capaz de oferecer proteção, representação e legitimidade aos diferentes segmentos da sociedade.

A guerra de 2026 tornou visível uma característica histórica do sistema libanês: a soberania não está concentrada em uma única instituição, mas distribuída entre múltiplos centros de poder que coexistem, competem e, por vezes, cooperam dentro do mesmo território nacional.

O Hezbollah: Partido, movimento e força militar

Poucas organizações políticas no Oriente Médio contemporâneo apresentam uma trajetória tão singular quanto o Hezbollah. Fundado em 1982, durante a invasão israelense do Líbano e em meio aos desdobramentos da Guerra Civil Libanesa, o grupo surgiu inicialmente como um movimento de resistência apoiado pela República Islâmica do Irã e inspirado pelos princípios da Revolução Iraniana de 1979. Seu objetivo original era combater a ocupação israelense no sul do país e representar politicamente parcelas da população xiita historicamente marginalizadas dentro do sistema político libanês.

Ao longo das décadas seguintes, entretanto, o Hezbollah ultrapassou a condição de simples movimento armado. A organização passou por um processo de institucionalização que transformou profundamente sua atuação e ampliou sua influência sobre a sociedade libanesa. Além de consolidar uma estrutura militar altamente organizada, o grupo construiu uma extensa rede de serviços sociais que inclui escolas, hospitais, centros de assistência, programas habitacionais, organizações beneficentes e iniciativas de reconstrução. Em muitas localidades, especialmente no sul do Líbano, no Vale do Bekaa e nos subúrbios ao sul de Beirute, essas estruturas passaram a desempenhar funções que, em teoria, deveriam ser exercidas pelo próprio Estado.

Esse processo contribuiu para fortalecer a legitimidade social da organização entre importantes setores da população. Para muitos de seus apoiadores, o Hezbollah não representa apenas uma força política ou militar, mas uma instituição capaz de oferecer proteção, serviços e representação em contextos nos quais o Estado frequentemente demonstra capacidade limitada de atuação. A popularidade construída por meio dessas redes de assistência explica, em parte, a capacidade do grupo de manter influência política significativa mesmo diante de críticas internas e pressões internacionais.

Paralelamente, o Hezbollah consolidou sua participação nas instituições formais do sistema político libanês. Desde a década de 1990, a organização participa regularmente das eleições legislativas, integra coalizões governamentais e ocupa assentos no Parlamento. Essa inserção institucional produziu uma característica incomum: o Hezbollah tornou-se simultaneamente um ator integrante do Estado e um ator parcialmente autônomo em relação a ele.

É justamente essa condição fragmentada que distingue o Hezbollah de outros movimentos políticos da região. Enquanto partidos convencionais atuam exclusivamente por meio das instituições estatais, e grupos armados operam à margem delas, o Hezbollah ocupa ambos os espaços. Trata-se, ao mesmo tempo, de um partido político legalmente reconhecido, uma organização social profundamente enraizada em determinadas comunidades e uma força militar com capacidade própria de dissuasão e combate.

Essa configuração gera um dos principais dilemas da política libanesa contemporânea. A presença de uma estrutura armada independente das Forças Armadas Libanesas desafia um dos princípios fundamentais do Estado moderno: o monopólio legítimo da força. Conforme argumenta Weber (1922), a autoridade estatal pressupõe a capacidade de controlar de maneira exclusiva os instrumentos legítimos de coerção dentro de um território. No caso libanês, entretanto, essa prerrogativa encontra-se parcialmente compartilhada.

Os defensores do Hezbollah sustentam que essa excepcionalidade resulta das condições específicas de segurança enfrentadas pelo país. Segundo essa perspectiva, a permanência das tensões com Israel e a recorrência de confrontos na fronteira sul justificariam a manutenção de uma força de resistência paralela às estruturas militares estatais. Para seus apoiadores, o grupo desempenha um papel estratégico na defesa nacional e atua como elemento de dissuasão diante de ameaças externas.

Por outro lado, setores críticos argumentam que a existência de uma força armada autônoma limita a consolidação das instituições nacionais e reduz a capacidade do governo de formular políticas de segurança de maneira plenamente soberana. Nessa interpretação, a manutenção de estruturas militares paralelas dificulta a construção de um Estado capaz de exercer autoridade uniforme sobre todo o território nacional.

Os acontecimentos registrados nos primeiros meses de 2026 recolocaram essa discussão no centro da agenda política libanesa. A escalada militar demonstrou que decisões relacionadas à segurança nacional continuam sendo influenciadas por atores que operam para além dos mecanismos tradicionais de controle estatal. Ao mesmo tempo, evidenciou a dificuldade das instituições governamentais em responder de forma unificada a crises que envolvem dimensões militares, diplomáticas e humanitárias.

Mais do que um debate sobre o Hezbollah, a crise de 2026 revelou uma questão estrutural da política libanesa: a coexistência de diferentes fontes de autoridade dentro do mesmo espaço nacional. Nesse contexto, compreender o papel do Hezbollah significa compreender também os limites históricos do Estado libanês e os desafios enfrentados por um sistema político construído sobre a necessidade permanente de equilibrar poder, representação e estabilidade.

A guerra de 2026 e os limites da Autoridade Estatal

Os acontecimentos registrados nos primeiros meses de 2026 evidenciaram uma das principais características da política libanesa contemporânea: a existência de múltiplos centros de poder atuando simultaneamente na definição das questões relacionadas à segurança nacional. A escalada militar na fronteira sul não apenas produziu impactos humanitários e diplomáticos, mas também revelou as limitações das instituições estatais diante de um sistema político marcado pela fragmentação da autoridade.

À medida que os confrontos se intensificavam, o governo libanês buscava preservar canais diplomáticos, evitar uma ampliação do conflito e reduzir os riscos de uma guerra em larga escala. Entretanto, as dinâmicas militares permaneceram fortemente condicionadas pela atuação do Hezbollah, cuja estrutura armada opera de forma autônoma em relação às Forças Armadas Libanesas. Essa realidade produziu uma situação paradoxal: embora o Estado continuasse sendo o representante formal do país perante a comunidade internacional, parte significativa das decisões relacionadas à segurança permanecia associada a um ator que não se subordina integralmente às instituições governamentais.

A crise evidenciou, portanto, um descompasso entre responsabilidade internacional e capacidade efetiva de ação. Enquanto governos estrangeiros, organismos multilaterais e mediadores diplomáticos direcionavam suas demandas ao Estado libanês, a capacidade deste de controlar todos os fatores envolvidos no conflito mostrava-se limitada. Em diversos momentos, as autoridades nacionais foram pressionadas a responder por acontecimentos sobre os quais possuíam influência apenas parcial.

Nesse contexto, as Forças Armadas Libanesas ocuparam uma posição particularmente delicada. Diferentemente de outros exércitos da região, a instituição militar libanesa atua em uma sociedade profundamente plural, marcada por divisões confessionais, disputas partidárias e sensibilidades comunitárias que exigem permanente equilíbrio político. Sua legitimidade depende, em grande medida, da capacidade de manter-se como uma instituição nacional relativamente consensual em meio às fragmentações da sociedade.

Essa condição limita significativamente sua margem de atuação. Um eventual confronto direto com o Hezbollah poderia não apenas gerar instabilidade interna, mas também comprometer o papel do Exército como um dos poucos símbolos de unidade nacional ainda reconhecidos por diferentes segmentos da população. Por essa razão, durante a crise de 2026, as Forças Armadas concentraram seus esforços em atividades relacionadas à manutenção da ordem pública, à coordenação de respostas humanitárias, à proteção de infraestruturas estratégicas e ao apoio às populações afetadas pelos confrontos.

A postura adotada revelou uma característica recorrente da experiência libanesa desde o final da Guerra Civil: o Exército funciona como um fator de estabilidade institucional, mas não exerce controle exclusivo sobre todas as dimensões da segurança nacional. Em vez de monopolizar o uso da força, compartilha, na prática, parte desse espaço com outros atores que acumulam legitimidade social, capacidade militar e influência política.

Diplomacia e a configuração do poder no Líbano

A crise recente evidenciou, mais uma vez, a profunda dependência do Líbano em relação à mediação internacional. Historicamente, os processos de estabilização do país raramente se sustentam apenas por dinâmicas internas, envolvendo a participação ativa de atores externos como Estados Unidos, França, Irã, Arábia Saudita e Nações Unidas.

As tentativas de contenção da escalada militar e de preservação de canais diplomáticos dependeram amplamente de negociações conduzidas fora das fronteiras libanesas, o que reforça a limitação das instituições nacionais na condução autônoma de crises estratégicas. Esse cenário revela uma dimensão essencial da fragilidade estatal: a soberania formal não se converte, necessariamente, em capacidade efetiva de decisão e controle. Em consequência, a soberania libanesa permanece atravessada por disputas regionais mais amplas, nas quais interesses externos influenciam diretamente os equilíbrios políticos internos e condicionam os rumos da governança nacional. Diante disso, a pergunta sobre quem governa o Líbano não admite respostas simplistas.

O Estado libanês mantém legitimidade jurídica, reconhecimento internacional e uma estrutura institucional formal consolidada. No entanto, sua capacidade de exercer controle integral sobre o território e sobre decisões estratégicas, especialmente no campo da segurança, permanece limitada e, em muitos casos, compartilhada. O Hezbollah, por sua vez, não pode ser compreendido nos termos clássicos de um “Estado paralelo”. Trata-se de um ator híbrido, cuja inserção política, militar e social lhe confere influência direta em decisões centrais para o funcionamento do país, sobretudo em contextos de crise.

A ano de 2026 evidencia, assim, um modelo de governança marcado pela fragmentação e pela coexistência de múltiplos centros de poder. O Líbano opera, na prática, por meio de uma configuração híbrida, na qual Estado formal, forças políticas internas e atores transnacionais compartilham de maneira assimétrica e frequentemente tensa: responsabilidades, recursos e capacidades de influência.

Essa realidade desafia concepções tradicionais de soberania e evidencia a necessidade de compreender o Oriente Médio contemporâneo a partir de estruturas políticas mais complexas, nas quais o poder não se concentra de forma exclusiva, mas se distribui, se negocia e se reconfigura continuamente entre diferentes escalas de atuação.

A fragmentação da soberania

Os primeiros meses de 2026 evidenciaram que a crise libanesa não pode ser compreendida apenas a partir de suas manifestações imediatas, sejam elas militares, econômicas ou humanitárias. Em profundidade, trata-se de uma crise de natureza estrutural do Estado, na qual estão em disputa os próprios fundamentos da autoridade política, da representação e da soberania.

Ao longo da análise, torna-se evidente que o Líbano não opera sob uma lógica de centralização clássica do poder estatal. Ao contrário, configura-se como um sistema político marcado pela fragmentação institucional e pela sobreposição de esferas de autoridade. Instituições formais do Estado convivem com partidos politicamente armados, organizações de base comunitária e uma densa rede de influências externas que atravessam continuamente o processo decisório. Essa multiplicidade não implica necessariamente a ausência de Estado, mas revela um Estado cuja capacidade de coordenação é permanentemente tensionada por forças concorrentes.

Nesse sentido, a governabilidade libanesa não pode ser interpretada como exercício unificado de soberania, mas como um processo de negociação constante entre atores com diferentes níveis de legitimidade, capacidade coercitiva e inserção social. O resultado é um arranjo institucional que se mantém funcional em termos mínimos, embora estruturalmente instável no que se refere à formulação e execução de decisões estratégicas.

Do ponto de vista da ciência política, o caso libanês desafia diretamente categorias clássicas herdadas da tradição weberiana de Estado. A ideia de monopólio legítimo da força e a noção de soberania como autoridade última e indivisível mostram-se insuficientes para explicar contextos em que o poder é compartilhado, disputado e, em certos momentos, externalizado. O Líbano, nesse sentido, aproxima-se de uma forma de soberania compartilhada de fato, ainda que não formalizada, na qual diferentes atores exercem funções tipicamente estatais em campos específicos, especialmente na segurança e na política externa.

A escalada de 2026 reforça essa leitura ao demonstrar que decisões centrais para a estabilidade nacional não se limitam ao circuito institucional do Estado, mas dependem de interações com atores transnacionais e regionais. Isso produz um tipo de soberania condicionada, na qual a autonomia estatal existe, porém de maneira relativa e continuamente negociada.

Mais do que responder de forma definitiva à pergunta sobre quem governa o Líbano, este estudo sugere que o problema central reside na própria redefinição contemporânea do conceito de governo. Em contextos como o libanês, governar não significa exercer controle pleno e hierárquico, mas administrar equilíbrios instáveis entre múltiplos polos de poder, frequentemente com agendas divergentes e capacidades assimétricas de influência.

Dessa forma, os acontecimentos de 2026 não devem ser interpretados apenas como mais um ciclo de crise, mas como expressão de um modelo político estrutural que tende à reprodução de sua própria fragmentação. O Líbano, nesse sentido, não é apenas um Estado em crise, mas um caso paradigmático para a compreensão das limitações do modelo clássico de soberania no sistema internacional contemporâneo.

Assim, permanece em aberto, e cada vez mais central para a análise política, a questão sobre os limites reais da construção estatal em contextos profundamente atravessados por divisões internas e disputas regionais. A resposta a essa indagação não apenas define o futuro do Líbano, mas também contribui para repensar os próprios fundamentos teóricos da ciência política diante das transformações do poder no século XXI.

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